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De Walsh a Herzog, de Sandoval ao Brasil de 2022

Atualizado: 8 de ago.

O jornalismo e a democracia sob constante ataque na América Latina


Se no século XX a história do continente foi marcada por ditaduras, nos dias de hoje os ataques prosseguem por outras vias de caráter igualmente ditatorial


Pedro Guevara


Em 25 de março de 1977 era capturado e morto o argentino Rodolfo Walsh, um dos maiores jornalistas da história do continente americano, pioneiro do jornalismo investigativo e símbolo do combate ao regime de Jorge Rafael Videla na Argentina. Walsh, assassinado pela ditadura argentina por ter publicado a “Carta aberta de um escritor à Junta Militar”, denunciando os crimes do governo homicida e ditatorial em seu país, deixou um grito em meio ao silenciamento imposto pelo governo argentino. Sua obra mistura jornalismo literário, contos policiais e investigativos e textos essencialmente políticos. É dele a frase: “O que vocês chamam acertos são erros, os que reconhecem como erros são crimes e o que omitem são calamidades”. Muito contemporânea, por sinal.


Rodolfo Walsh. Imagem/Reprodução: Brasil de Fato


Também em um dia 25, agora em outubro de 1975, Vladimir Herzog era mais um “suicidado” pela ditadura militar brasileira nos porões do DOI-Codi, em São Paulo. Herzog, assim como inúmeros outros jornalistas, não teve direito ao adeus, sendo mais um alvo da tirania dos anos de chumbo.


Quase cinco décadas depois dos assassinatos de Walsh e Herzog, as veias latino-americanas seguem abertas, ainda que com cicatrizes de caráter distinto. Se por um lado o tempo das ditaduras parece ter passado, os ataques à democracia no continente não se encerraram, tampouco aos profissionais da imprensa. No último 1º de maio, a chilena Francisca Sandoval foi alvejada durante sua cobertura das manifestações em Santiago. É a primeira jornalista assassinada após a volta da democracia ao Chile. Se Pinochet já descansa no inferno, sua essência ditatorial ainda está presente no território latino-americano, manifestando-se desde as vias mais sutis (ou institucionais) até as mais sangrentas, nas ruas e nos conflitos que viraram rotina nos últimos anos.


Vigília no Chile por conta da morte da jornalista. Imagem/Reprodução: Martin Bernetti


Nos números, fica ainda mais evidente o caos vivido por quem trabalha na área da comunicação no continente. No último Índice Global de Liberdade de Imprensa, divulgado em maio deste ano, apenas dois países da América do Sul figuraram entre as 50 primeiras posições no ranking, que conta com 180 nações: Argentina (29º) e Uruguai (44º). O Brasil, por sua vez, ficou na 110ª colocação.


Em outubro, a morte de Vladimir Herzog completará 47 anos. No mesmo mês, o Brasil definirá, além de deputados, governadores, senadores e presidente, os rumos de uma democracia que sequer completou quatro décadas de restauração. Ao passo em que o líder do executivo descredibiliza o sistema eleitoral, ataca a imprensa, as instituições e todos os setores que não o seguem fielmente, a necropolítica latino-americana se manifesta de maneira poucas vezes antes vista no país. Esse estado permanente de morte se constrói não apenas na pandemia, que ceifou centenas de milhares de vidas, ou na escalada de pobreza e fome pelo continente. Também se estabelece na prática de colocar jornalistas na mira do fuzil de uma pátria cada vez mais armada.


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