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“American Male at Age Ten” é o retrato perfeito da vida pacata estadunidense nos anos 90

Luana Reis


American Male At Age Ten é um artigo escrito pela jornalista norte-americana Susan Orlean em 1992 para a revista Esquire. Nele, somos apresentados a Colin Duffy, que, a julgar pelo título, você provavelmente deve ser capaz de imaginar como ele é. Com seu estilo único de reportagem, ela nos faz enxergar os Estados Unidos da década de 90 a partir dos olhos de um pré-adolescente, que tem a maturidade para saber que dinheiro não cresce em árvores e que ele deve se casar algum dia, mas que ainda enxerga meninas como alienígenas e adora jogar videogames. O texto é considerado um clássico e não é por acaso: Susan Orlean é uma jornalista diferente da maioria e sabe escrever um perfil como ninguém. Vale a pena ler, porque é uma referência e, se você quiser ser um escritor fora da curva, pode tirar observações muito proveitosas.

(Imagem: Reprodução)


O artigo começa de forma inusitada: “Se Colin Duffy e eu fôssemos casados, nós teríamos cadernos de super-herói combinando. Nós comeríamos pizza e doces em todas as refeições. Nossa estrela de cinema favorita, Morgan Freeman, viria nos visitar o tempo todo. Nós seríamos ambos bons em futebol, teríamos melhores amigos e saberíamos dirigir”. Diferente, não? É uma maneira incomum de começar um texto, mas se o primeiro parágrafo é a chave para conquistar o seu leitor, então podemos dizer que Orlean acertou em cheio. O inesperado vem na medida certa. É estranho o bastante para chamar a nossa atenção, mas não o suficiente para nos assustar e interrompermos a leitura. O início é a parte mais marcante do texto. É original. Você vai folhear as páginas e terminar de ler, mas não vai esquecê-lo. Definitivamente, a autora não guardou o melhor para o final.


Susan Orlean é um dos maiores nomes do jornalismo norte-americano. Ela já escreveu para grandes veículos como Rolling Stone, Vogue, The New Yorker e The New York Times e atualmente conta com oito livros publicados. “O Ladrão de Orquídeas”, baseado em uma investigação de Orlean e provavelmente a sua obra mais conhecida, foi adaptado para os cinemas, com direito à atuação da fenomenal Meryl Streep para interpretar a jornalista. Como se já não bastasse, em 2003, foi convidada para se tornar uma associada da Nieman Fellowship, da Universidade de Harvard. Ou seja: não é pouca coisa. Ah, e ela também adora escrever sobre seu cachorro de estimação, Cooper, que parece especial o suficiente para ocupar um terço da sessão “sobre” em seu website e, em um tom sempre muito bem-humorado, é figura recorrente em suas redes sociais. Por que não, certo?


A jornalista, em um bate-papo com o Nieman Storyboard, de Harvard, no qual contou detalhes sobre o processo de desenvolvimento da reportagem, descreve a experiência de conviver com Colin e escrever esse artigo para a Esquire como uma oportunidade única. As páginas da revista eram sempre estampadas por grandes nomes do entretenimento e a jornalista inova ao trazer um menino desconhecido do subúrbio para a sua coluna. Foi um desafio. Como ela mesmo diz, teria sido muito mais fácil simplesmente ter escrito um perfil de Macaulay Culkin, de Esqueceram de Mim, – capa daquela edição – ao invés de um menino qualquer, no qual a autora precisa provar, a todo momento, o porquê de um tema tão genérico merecer atenção.


Ficamos curiosos para saber quem é esse tal de Colin, que nos é apresentado logo na primeira frase, porque Orlean sabe exatamente como prender a nossa atenção e despertar o nosso interesse. As primeiras páginas são excitantes, mas o desenrolar da história é um tanto sem sal. Em outras palavras, o texto é pacato como a vida do Colin. Pode ser nostálgico, para alguns, com tantas referências a elementos marcantes da época, como o videogame Game Boy, a supermodelo Cindy Crawford e a epidemia da Aids. Mas se trata apenas de um retrato da rotina de um menino qualquer de dez anos em mais uma cidade no subúrbio norte-americano. Essa é justamente a intenção da autora: fazer o normal virar notícia. Vale avisar que, se você não souber disso, não vai ver muita graça e provavelmente deve acabar perdendo o melhor que a matéria tem a oferecer. Se você procura uma reviravolta ou uma aventura, vai se frustrar e se sentir traído pelo primeiro parágrafo.


Os melhores momentos da narrativa são quando o jeito engraçado e a imaginação fértil de um pré-adolescente conseguem quebrar com o clichê daquele estilo de vida. “Ele tem idade o suficiente para começar a imaginar que algum dia vai se casar, mas aos dez anos, tem certeza de que a melhor parte vai ser poder dormir usando roupas.” É simplesmente sensacional a maneira como a repórter tenta nos fazer entrar na cabeça dele, um recurso que, com certeza, deixa o perfil muito mais interessante.


No mais, você, querido leitor do século XXI, certamente não vai deixar de reparar em uma série de problemas nessa viagem a um tempo em que o debate sobre igualdade de gênero não era tão presente. Mas o texto de Susan Orlean apresenta uma visão muito à frente de seu tempo e a maneira como a sua escrita trata de questões como educação sexual e o mito em torno do desenvolvimento da masculinidade de um pré-adolescente é um ponto muito interessante a ser destacado. É fascinante. Nesse perfil, ela vai muito além de uma simples apresentação de personalidade e consegue tocar em questões de extrema importância. Orlean não se prende ao básico e sabe explorar esses temas muito bem, abrindo espaço para boas reflexões. Um exemplo é o fato de ser mencionado que o personagem principal estuda em uma escola progressista, vindo de uma preocupação de seus pais quanto à sua formação, mas Colin e seus colegas de classe não estão nem um pouco preocupados com isso. Tão tosco que chega a ser cômico. “(Seus pais) o deram bonecas, assim como armas. (Ele preferiu armas.)”.


O final do texto é bem morno. Sem graça. Mas não tínhamos como esperar uma grande aventura ou reviravolta simplesmente porque não é essa a intenção do texto. Isso pode te causar um certo estranhamento, se você está acostumado com grandes histórias nos furos de reportagem. Colin é simplesmente normal. Mas aposto que a sua vida também é assim. Uma curiosidade é que Susan Orlean, 20 anos depois, contou que mantinha contato com o menino e que sua vida não tinha seguido um caminho nem um pouco previsível, como ela imaginava. Ela brincou: “Provavelmente teria feito uma história ainda mais intrigante!”.


Com um vocabulário fácil de compreender, qualquer pessoa com nível intermediário de inglês deve ser capaz de ler o texto sem problemas. A leitura é fluida, marcada por períodos curtos. Na maior parte do tempo, estamos diante de trechos descritivos, mas isso não faz com que o texto seja monótono ou perca o dinamismo, porque Susan Orlean sabe escrever muito bem. Mesmo se você achar a vida do Colin um porre, deve aproveitar o artigo porque é uma verdadeira aula de como escrever um perfil.


Inclusive, Susan Orlean tem um curso online de como escrever textos não ficcionais sem perder a criatividade, assim como em “American Male at Age Ten”. Vale a pena conferir!

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