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A Sangue Frio: Como Truman Capote une jornalismo e literatura


Alessandra Holanda



Uma cidade pacata, uma família prestigiada e um assassinato brutal. Truman Capote conta em seu livro de romance não-ficcional (assim denominado pelo próprio autor), A Sangue Frio, sobre um dos mais famosos casos de homicídio da década de 50, ocorrido em uma pequena cidade do estado do Kansas nos Estados Unidos, Holcomb. A obra se tornou um marco na história do jornalismo investigativo, devido ao projeto de pesquisa e pelo modo que ele une, com maestria, o jornalismo e a literatura.


Capa do livro "A Sangue Frio" de Truman Capote (Imagem: Reprodução)


Em dezembro de 1959, o casal Bonnie e Hebert e seus dois filhos Nancy e Kenyon foram assassinados de forma cruel por Perry Smith e Dick Hickcock em sua própria casa. O caso da família Clutter mudou toda a dinâmica da pequena cidade interiorana. Se antes habitava um sentimento de paz e segurança, depois da tragédia, a sensação compartilhada pelos moradores era de medo e desconfiança. Todos eram suspeitos desse crime hediondo e, enquanto não eram encontrados os criminosos, cada morador fazia sua aposta de quem estaria por trás do ocorrido.


Apesar da chacina ter chocado a comunidade do Kansas, ela só foi ficar conhecida após a interferência de um jornalista que se interessou pelo caso. Truman Capote começou a escrever sobre o assassinato e o desenrolar do julgamento para publicar uma nota no The New York Times. Mas o escritor acabou se envolvendo com a história e transformou uma simples notícia em uma obra de mais de 300 páginas.


O projeto de pesquisa, as entrevistas com os detetives e os acusados e o estudo sobre a vida das vítimas revelam todo o trabalho jornalístico, feito de modo tão detalhado pelo autor. Capote foi tão a fundo em suas pesquisas, que chegou a refazer a rota de fuga dos criminosos e entrevistou inúmeros personagens pelo caminho. Todo esse material adquirido por ele fez com que o livro fosse tão ricamente detalhado, a ponto do leitor conseguir de fato imergir na história.


Vale destacar o modo como Capote organizou as histórias dos personagens, não colocando o foco do livro no “quem”, mas sim nos "porquês", pois, afinal, por se tratar de um caso real, já se sabia quem eram os culpados do crime. Por isso, o autor não foca em fazer um suspense sobre a identidade dos assassinos, mas em contar como o caminho deles se cruzou com o das vítimas.


Personagens do livro: a família Clutter e os envolvidos no crime (Imagem: Reprodução - Isto É)


Ao longo de A Sangue Frio, o leitor conhece a vida de cada uma das vítimas de uma forma mais íntima, mas o que surpreende é a forma como Capote busca trazer um novo olhar sobre os assassinos, pois, até então, eles eram vistos como monstros. O autor devolve pra eles o caráter humano, buscando mostrar as razões que os teriam levado a cometer o crime, apresentando a complexidade dos seus pensamentos e trazendo a versão deles sobre o que teria acontecido.


O livro de Capote consegue dosar jornalismo e literatura de uma forma única. O escritor traz uma narrativa verídica e se atém aos fatos, mas também faz uso de sinestesias e metáforas para trazer um maior lirismo ao livro. A Sangue Frio virou um marco na história do jornalismo, mostrando que é possível unir as características essenciais de um bom jornalista com o universo literário.


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