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A Amazônia como periferia na vida do brasileiro

Lívia Vardasca


(Imagem extraída do site da revista Piauí)



“Arrabalde, parte I_A Floresta Difícil” foi a reportagem que, de cara, saltou aos meus olhos na Revista piauí de novembro. Escrita pelo editor fundador da revista, João Moreira Salles, é a primeira parte de uma série de reportagens a serem lançadas nos próximos meses, resultado de mais de 2 anos de apuração da piauí na região norte. O título representa uma das mensagens principais da reportagem e que se resume bem nessa frase: “As forças que avançaram sobre a floresta nunca tentaram compreender a real vocação da mata, aquilo de que ela é capaz”. Isso faz com que a Amazônia seja um eterno arrabalde, estrangeira aos olhos e à compreensão dos brasileiros e de (quase) todos os que ousaram aproximar-se dela.


Arrabalde narra a história de como a maior floresta tropical do planeta vem sendo percebida por aqueles que se relacionam com ela desde o século XVI até os dias de hoje.”


A reportagem conta com narrativas concretas e poéticas. Ela não é para ser lida apenas uma vez e sem rabiscos ou destaques em suas páginas. Cada grande parágrafo, com suas características narrativas e de enredo particulares, traz uma forma de reflexão sobre a paisagem amazônica. Entretanto, todos eles instigam reflexão: durante a leitura, fui resgatando involuntariamente conceitos sociológicos, conhecimentos literários e imagéticos, que nunca imaginei que se relacionariam com algo tão próximo, mas tão distante, como a Amazônia.


Salles traz essas reflexões por meio de, na minha perspectiva, quatro grandes narrativas que compõem essa história. É uma reportagem longa: 13568 palavras. Mas, ao final, percebi que elas não chegam nem perto do número quase que infinito necessário para compreender a floresta. Ele nos mostra que apesar de a Amazônia ser o nosso “orgulho”, estar na boca de ambientalistas e na imprensa o tempo todo, muito pouco olhamos para ela. Apesar de ser uma confissão dura, as palavras de um ex-governador do Pará, Simão Jatene, refletem a situação: “A Amazônia é periferia não só econômica, mas também de pensamento. O Brasil não se preocupou em produzir uma ideia sobre a floresta.”



Todas essas ideias podem parecer um pouco confusas a princípio, mas ao longo da reportagem, vamos delineando o caminho para essa compreensão. A primeira narrativa é, basicamente, sobre Belém, uma cidade “que já não sabe onde está”. Apesar de estar na região amazônica e ter um clima tão ameno, que chega a fazer 36°C às 8h da manhã, Belém parece ter se esquecido disso. Essa parte da reportagem mostra cenas de como a “floresta sumiu da vida das pessoas”. Isso se reflete em um segurança na porta de uma igreja, debaixo de um sol de lascar, vestindo camisa, gravata e ternos pretos; nas gôndolas principais da sessão de frutas, em um dos grandes mercados da cidade, que são ocupadas por “maçãs, peras, morangos, romãs e pitaias” - todas espécies exóticas; e em como, estranhamente, é mais fácil encontrar Cheetos do que castanha-do-pará nesse mesmo mercado. O cenário é Belém, mas poderia ser qualquer lugar.


Essa etapa da matéria é perfeitamente resumida por esse trecho: “O homem de terno preto sob o sol do Equador é o retrato desse desconcerto, a figura de um impasse. Ele é o boi, a soja, o garimpo, o machado, a serraria, o modo como essas coisas ocuparam a floresta e substituíram uma paisagem por outra sem nunca pôr em questão a viabilidade da troca”. Ou seja, a maneira incoerente com que a paisagem amazônica foi sendo transformada pelo homem ao longo de nossa história.


Em seguida, conhecemos a história de Luiz Gonzaga, um fazendeiro que depois de muito quebrar a cabeça, decidiu que “seria parceiro da mata, não adversário dela”. Desistiu de tentar domesticar a vegetação natural nos seus alqueires, para alimentar com pasto o seu gado, para aproveitar o que a energia da vegetação natural poderia oferecer. Ele diz que “‘por causa dela’” tem um dos três bosques mais produtivos do mundo. Com um pouco de observação e estudo, Luiz Gonzaga percebeu que a mata natural, contra a qual ele tanto lutou (e perdeu), poderia ser ecologicamente favorável a outras espécies que ele viesse a cultivar perto dela e assim fez sua riqueza. Além disso, aqui compreendemos um pouco sobre o conhecimento brasileiro da ecologia amazônica e o(s) porquê(s) de não sabemos aproveitar seu potencial de gerar riquezas.


Nesse ponto, comecei a perceber como a técnica narrativa vinha sendo bem exercida. A partir das histórias, começamos a expandir nosso entendimento para todos esses aspectos que se escondem nas nuances da floresta e, além disso, elas relacionam-se umas com as outras e com o seu imaginário também. Senti que conforme fui avançando na reportagem, o entendimento da mensagem foi ficando cada vez mais fácil.


O terceiro grande assunto foi também o meu preferido. Nesse parágrafo, o jornalista traz várias produções escritas, desde 1542, que mostram as duas faces da Amazônia: uma mítica, motivada por sua imensidão e exuberância, e uma real, cheia de desafios e mistério. Aqui conhecemos o “desajuste” que existe “entre a floresta e o forasteiro”, vemos como diversos grupos e pessoas se relacionaram com ela e até que ponto se entregaram para essa descoberta. São várias narrativas e olhares, que valem a pena serem lidos. Ressalto, assim, um trecho que diz sobre o ponto-chave da Amazônia e que, constantemente, lhe vem sendo negado: atenção.


“A pensadora francesa Simone Weil dizia que a atenção é a forma mais rara e mais pura da generosidade. A floresta sempre precisou de atenção, mas poucos lhe dispensaram esse cuidado simples. Populações indígenas e tradicionais, sim. Naturalistas, exploradores e cientistas, sim. Alguns escritores, sim. Mas a grande massa de gente que, ao fim e ao cabo, colonizou a Amazônia, não.”


Ainda, a reportagem traz a história da peculiar mistura de colonização com experimento social que aconteceu na floresta, no período da Ditadura Militar brasileira. O “Projeto Tucumã” nasce do empreendimento de colonização da empreiteira Consag (Colonizadora Andrade Gutierrez) e da idealização da filha de seu dono, Lian Andrade: “Uma comunidade de pequenos agricultores nascida dos sonhos igualitários de dois militantes de esquerda”, que “foi um vetor da criação de Tucumã tão determinante quanto a motivação política e econômica”. Essa passagem nos mostra, principalmente, que a desordem e o improviso costumam ser regra na região e que as pessoas - os migrantes, mais volumosos na colonização amazônica - não queriam entender a floresta, somente reproduziram nela aquilo que já conheciam. Tudo às custas de muita violência e devastação.


Por fim, recomendo essa leitura a todos os futuros jornalistas e amantes do jornalismo literário. Salles reforça que a Piauí tem o “foco em contar uma boa história”, pois assim o fez lindamente nessa primeira reportagem, que me fez esperar ansiosamente pela edição, no próximo mês. Despertou-me curiosidade sobre quais rumos essa cobertura pode tomar e, mais ainda, sobre quais outras faces da Amazônia serão desvendadas. Após esse apanhado geral, não tenho críticas negativas à reportagem. O tom literário e descritivo que João Moreira Salles adotou me agrada muito, a quantidade e variedade de imagens que ele conseguiu inspirar em minha mente foram suficientes para que eu (quase) criasse, dessa vez, meu próprio ideal da floresta amazônica.













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