Buscar

2578 dias sem Tiffany Whitton: quando o jornalismo se cala

Beatriz Brito


Há 2578 dias, ninguém vê Tiffany Whitton.


Quando o jornalista Tom Junod começou a escrever o artigo Missing para a revista Esquire, em 2015, Tiffany Whitton não era vista há quase 500 dias. Já se passaram cinco anos e a situação de Tiffany permanece a mesma: dada como morta. Segundo Junod, todos os anos, o número de mulheres desaparecidas é o equivalente a um estádio de futebol. Muitas delas retornam. Outras, um total bastante significativo, tiveram o status mudado de “desaparecida” para “assassinada”. E Tiffany, apesar dos cabelos loiros e do sorriso brilhante, também virou estatística.


A última vez que Lisa Daniels, mãe de Tiffany, viu a filha não foi uma cena nada agradável. Gravada pelas câmeras de segurança de um Walmart em Marietta, na Georgia, a jovem de 26 anos furta peças de roupas. Além disso, está evidentemente drogada. Durante seus últimos anos de vida, era isso que ela fazia: roubava para financiar o vício em heroína e metanfetamina. Mas a doença da ex-líder de torcida não é explicação para o que acontece em seguida: na madrugada do dia 13 de setembro de 2013, Tiffany Whitton passa correndo pelas portas da loja para fugir dos seguranças e nunca mais é vista por ninguém. Ou é isso que garante Ashley Caudle, traficante e então namorado de Tiffany, apesar das autoridades locais o considerarem o principal alvo de investigação na época.


Tiffany Whitton e Ashley Caudle se conheceram no início do verão de 2013, poucos meses antes dela desaparecer sem deixar rastros. Eles viveram o que Caudle descreve como um “romance trágico”, apesar dos amigos do casal contarem uma história completamente diferente: a de que eles brigavam tanto que chegaram a ser despejados do trailer em que moravam juntos. Atualmente, Caudle vive na Penitenciária de Carroll County, onde foi condenado a cumprir 20 anos por vender metanfetamina – é a sentença mais severa por ele não ter “colaborado com as autoridades em um inquérito de uma pessoa desaparecida”. Entrevistado por Tom Junod no início de 2016, Caudle alega que Tiffany saiu correndo do Walmart naquela madrugada de 2013 e ele nunca mais a viu. Porém, a detetive Jonnie Moeller – chefe da investigação sobre o desaparecimento da jovem durante o período de um ano – é clara ao dizer: “Quando falei com ele [no telefone pela primeira vez], eu soube”.

(Última foto de Tiffany Whitton com vida. Imagem: Reprodução/Facebook)


Há uma lacuna de tempo entre o momento em que as câmeras mostram Tiffany passar correndo por Ashley Caudle para fora da loja e o instante em que Caudle aparece pela manhã no IHOP, restaurante em que Tiffany trabalhava e que fica próximo ao Walmart. Ele pergunta à Sheila Fuller: “Ei, alguém viu a Tiffany?”. Sheila é garçonete do IHOP e torna-se o que é considerado pelas autoridades a testemunha mais sólida do caso. Ela contou a Junod que Caudle segurava o celular de Tiffany nas mãos e disse estar procurando-a. Apesar disso, ele ficou uma hora e meia sentado no estabelecimento até um carro aparecer para buscá-lo. Dentro do veículo, estavam um homem e duas mulheres. Nenhuma delas era Tiffany Whitton. O motorista em questão é Stephen Weinstein, amigo do casal na época. Ao conversar com Junod em 2015, ele alega: “Depois que voltamos para a minha casa, dirigimos pelo bairro por um tempo, procurando por ela. Ashley não quis ir porque teve medo de ser apanhado pela polícia. Ele disse: ‘Ela vai aparecer. Ela vai aparecer na sua casa.’”. Mas já faz 2578 dias, e Tiffany não apareceu.


Não há evidências o suficiente para condenar Ashley Caudle pelo homicídio de Tiffany Whitton, apesar do traficante ser o único suspeito desde o momento em que a detetive Moeller conversou com ele pela primeira vez. Isso porque as horas entre a madrugada e o amanhecer do dia 13 de setembro são um tempo curto demais para um assassinato tão bem executado, sem provas concretas e nenhum corpo. É verdade que Caudle lavou o interior da picape que dirigia naquele dia, como ele mesmo admite, mas ele explica que essa era uma ação rotineira, visto que a camionete estava sempre suja e cheia de tralhas de viciados. Eis os dois fatos nos quais os investigadores acreditam: primeiro, o que quer que tenha acontecido ocorreu naquela manhã, em algum instante após Tiffany fugir do Wallmart e antes de Caudle aparecer no IHOP, pouco depois do nascer do sol. Segundo, que Tiffany Whitton deixou de existir na manhã do dia 13 de setembro de 2013.


O trabalho de Tom Junod é impecável: depois de narrar de maneira bastante verossímil as imagens da câmera de segurança e detalhes daquele verão, o jornalista traz diversos personagens e fontes, desde os detetives envolvidos no caso, passando por testemunhas, até chegar ao suspeito. Junod não vilaniza ninguém, somente constata os fatos. Por exemplo, ele mesmo afirma que é possível que existam dois Ashley Caudle: o homem inocente com quem ele conversou e que acredita que Tiffany ainda esteja viva, apesar de não vê-la desde que ela saiu do Walmart. E o traficante agressivo que sabe exatamente o que aconteceu com ela, tal como apontam as provas da investigação, mas que guarda esse segredo há 2578 dias. E é isso que torna a reportagem interessante, especialmente quando consideramos que ninguém foi comprovado culpado e preso. O leitor define a própria opinião a partir do que lê, juntando as peças do quebra-cabeça e pensando no que de fato ocorreu naquela madrugada. É possível até mesmo imaginar os últimos meses de vida de Tiffany, sua última conversa com a mãe, a vez que ela não tinha dinheiro para comer e a avó precisou socorrê-la. Assim, sem quem está lendo sequer perceber, Junod humaniza Tiffany de uma forma que nem mesmo a imprensa fez na época. Ela deixa de ser uma viciada que desapareceu no meio da noite e passa a ser a filha de Lisa Daniels que não é vista há 7 anos, uma mulher que poderia ser qualquer uma.


Vale a pena mencionar também a carga emocional que Junod consegue colocar na matéria. Quando a reportagem faz o leitor sentir alguma coisa, ela o prende, obrigando-o a percorrer as quase 50 páginas para descobrir o fim da história, mesmo que isso signifique também o fim de Tiffany. Junod usa frases muito fortes ao tratar da relação dela com a mãe – antes e até depois do desaparecimento –, tornando impossível não sentir empatia pela família Whitton. Segundo o jornalista, “antes de se tornar um corpo, Tiffany se tornou um fantasma; agora, o mesmo aconteceu com a mãe dela, assombrando os locais que Tiffany costumava assombrar”. Como não sentir compaixão por isso? De forma semelhante à Lisa, ao mesmo tempo que temos esperanças que a filha dela seja encontrada, também esperamos que não seja. Porque encontrá-la agora seria encontrar um corpo. E todos nós, principalmente as mulheres, conhecemos uma possível Tiffany. Alguém que não seria considerada digna de atenção pelos veículos de comunicação, que seja vista como menos que outras por ter o nariz grande demais ou dinheiro de menos e que, se desaparecesse no meio da noite, ninguém olharia duas vezes. A reportagem é crua, genuína e, infelizmente, fácil de se identificar. Desperta empatia até mesmo em quem não reconhece a própria realidade nela. E por isso é tão significativa e indicada para leitura.


No ano de 2013, estatísticas do FBI comprovam que mais de 68 mil mulheres foram declaradas como desaparecidas nos Estados Unidos. Mas apesar de ser um problema nacional, é tratado localmente, ou seja, somente pelas jurisdições competentes. Não há, portanto, uma autoridade central a quem se possa recorrer, o que dificulta a solução da maioria das ocorrências. O Departamento da Justiça dos EUA financia uma base nacional de dados de pessoas desaparecidas e corpos não-identificados, a NamUs, mas os próprios agentes da base garantem que as autoridades locais não têm o costume de usá-lo. “Os seus vizinhos vão trabalhar como se nada tivesse acontecido, e até mesmo a polícia segue em frente. Mas você não tem escolha a não ser continuar procurando por um fugitivo entre os mortos”, é o que diz Todd Matthews, um dos criadores da NamUs.


Nesse contexto, é possível afirmar que os veículos de comunicação são fundamentais para dar visibilidade aos casos, o que pressiona as autoridades a continuarem investigando. É intrigante que seja Tom Junod, um jornalista, a apontar os pecados da imprensa. Ele destaca que, embora alguns desaparecimentos recebam atenção nacional a ponto de se tornarem “frenesi dos tablóides”, a imprensa ainda é “implacavelmente seletiva”, tendendo a preferir mulheres brancas, bonitas e, sobretudo, inocentes. Tiffany Whitton era branca, mas também viciada em drogas. Isso significa que ela não é interessante para os meios de comunicação, caindo na chamada “síndrome de mulher branca desaparecida”. Esse é o termo utilizado por sociólogos para a extensa cobertura midiática de casos de mulheres brancas de classe média que desaparecem, de maneira a ignorar quase que totalmente mulheres não-brancas ou de classes sociais mais baixas. Sendo assim, não se pode desconsiderar a responsabilidade da imprensa, isto é, o menosprezo midiático que mulheres como Tiffany sofrem. Fazer essa crítica é defender a isonomia, por isso a leitura de Missing é muito recomendada, especialmente aos jovens estudantes de comunicação, para que não cometam os mesmos erros futuramente. O jornalismo, então, pode ser um grande aliado dos casos de desaparecimentos. No caso de Tiffany, ele se tornou um inimigo: talvez o pior tipo, o que vê, mas finge não enxergar.


“Tiffany, eu sempre vou te amar. Mas você está me matando” foram as últimas palavras de Lisa Daniels para a filha, meses antes daquele fatídico verão. E Lisa, por bem ou mal, cumpriu a promessa de amor eterno: desde que relatou o desaparecimento da filha em janeiro de 2014, ela mantém uma página no Facebook para receber notícias sobre possíveis paradeiros de Tiffany. Frequentemente, ela recebe pistas falsas, como a vez em que foi alertada sobre restos mortais encontrados em Paulding County. Todas as noites, ela reza para o celular vibrar com a informação que irá levá-la ao corpo de Tiffany Whitton. Mas nenhuma das 2578 manhãs desde aquele 13 de setembro foi o dia em que Lisa Daniels acordou para descobrir onde está a filha.


80 visualizações2 comentários

Posts recentes

Ver tudo

Laura Alexandre O número de mulheres na política ainda é pequeno no Brasil. De acordo com reportagem da Folha de São Paulo a partir de dados da União Interparlamentar, o Brasil está em 142° lugar no r

Anna Barbara Em tempos de pandemia, o jornalismo ganhou ainda mais relevância para transmitir informações corretas e combater a desinformação. Muitas reportagens têm alertado para para falsas práticas