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Reportagem de Elizabeth Day conta história de Thomas Quick: o serial killer que nunca matou

Yasmin Oliveira


A criminalização de inocentes e o aumento da impunidade são algumas das consequências causadas pelos erros policiais. Apesar da frequência em que esses erros acontecem, ainda há casos que dão a impressão de que tais situações não aconteceram por mero equívoco e sim por ser mais cômodo aceitá-las. A reportagem do The Guardian, Thomas Quick: The Swedish serial killer who never was (em tradução livre: Thomas Quick: O serial killer sueco que nunca existiu) conta exatamente a história de um desses erros que chocou toda a Suécia.


A matéria foi feita pela escritora e romancista inglesa Elizabeth Day, em 2012 e narra a fatídica história de Sture Bergwall, conhecido popularmente como Thomas Quick (como ele se autodenominou) e que por anos foi considerado o principal serial killer da Suécia após ter confessado mais de 30 assassinatos. No entanto, após o documentarista sueco Hannes Rastam começar a investigar a ficha do criminoso, ele descobriu que não havia nenhum tipo de prova ou testemunha dos crimes confessados por ele. As únicas “evidências” que os policiais tinham contra o homem eram suas confissões, que, muitas vezes, foram feitas quando ele estava sob efeito de remédios. Então, depois de passar mais de 20 anos internado no Hospital Säter (hospital psiquiátrico para criminosos loucos), Bergwall declara algo totalmente chocante e inesperado: que mentiu em relação aos assassinatos, ou seja, que ele não cometeu tais crimes e toda a história foi inventada.


Essa declaração, ainda que verdadeira, faz com que alguns questionamentos sejam feitos, como, de que forma Thomas Quick teve acesso às informações mais importantes de cada caso a ponto de convencer a polícia de que ele era realmente culpado, o porquê a polícia o condenou apesar de não haver provas e, principalmente, o porquê dele ter confessado tais crimes se ele era mesmo inocente. Além disso, uma questão de extrema importância que é levantada por aqueles que têm contato com a história é a ineficácia do sistema jurídico, que manteve Sture Bergwall como culpado dos crimes por anos, e devido sua condenação, os verdadeiros criminosos não foram punidos. A matéria, portanto, responde essas perguntas, que são muito bem esclarecidas e respondidas minuciosamente ao longo da reportagem, fazendo com que ela se torne ainda mais interessante.


A seleção dos entrevistados para a matéria foi extremamente criteriosa. Elizabeth Day foi a primeira jornalista britânica a conversar com Sture Bergwall, mas além dele, ela também entrevistou seu advogado de defesa, a pesquisadora do documentário de Rastam, o juiz da Suprema Corte - que declara acreditar que Bergwall é culpado - e o pai de uma das vítimas, a do primeiro crime “cometido” por Thomas Quick e que desde o início não acreditava que ele era realmente o culpado e já estava convencido de quem tinha assassinado seu filho. Em algumas dessas entrevistas, a jornalista descreve detalhadamente o ambiente da conversa, o jeito e a personalidade dos entrevistados, como acontece já no primeiro parágrafo, em que ela narra a sua entrada no hospital Sätre e as etapas que tem que passar para conversar com o encarcerado. O uso desse recurso, além de fazer com que o texto ganhe um ar literário, envolve ainda mais o leitor com a história.

Sture Bergwall no hospital Säter. Crédito: Andy Hall/The Observer


Além disso, é notável a forma como a história de Bergwall não é simplesmente “jogada” e contada de qualquer forma, mas os fatos são muito bem apurados e expostos a fim de dar embasamento à principal ideia defendida na reportagem que é a da inocência de Sture. Embora essa ideia tenha sido muito bem explorada ao longo do texto, a autora não deixou de considerar e expor a teoria contrária a essa, ou seja, a teoria de Bergwall ser realmente culpado, dando voz, inclusive, a quem a defendia. Sendo assim, é importante ressaltar que a matéria de Elizabeth é acima de tudo e sem dúvidas um trabalho muito bem feito.


A matéria é indicada a estudantes de jornalismo por ser um excelente exemplo de qualidade, visto que o texto, além de muito bem estruturado, conta fielmente o caso do suposto criminoso, que quando foi narrado ainda estava em andamento. Portanto, a autora consegue cumprir a missão de ser convincente em relação à história sem apelações e excesso de opinião própria. Além disso, vale a leitura também por aqueles que são fãs de romances policiais. Como Elizabeth Day compara ainda no subtítulo, a história do suposto serial killer sueco realmente se parece com um “romance policial escandinavo” e essa semelhança fica ainda mais clara devido à presença da crueldade, da violência, da tortura e do suspense que são destacados ao longo da reportagem.


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