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Redações sem pluralidade e o fim da imparcialidade no jornalismo

Atualizado: 9 de out. de 2020

Rosamaria Santos


(Redação da CNN Brasil. Imagem: CNN Brasil)


Kobe Bryant, jogador de basquete do LA Lakers, morto aos 41 anos em um acidente de helicóptero na Califórnia. LeBron James, também jogador do LA Lakers, 35 anos. O que os dois tinham em comum além de trabalharem para o mesmo clube? Eram pretos. Essa parece ter sido a única informação analisada pela BBC ao cobrir a morte de Kobe. A troca das fotos de Bryant pela de James feita pela empresa britânica durante uma reportagem tão séria inspirou o artigo The Importance Of Diversity In The Newsroom, de Stephen Frost, para a revista Forbes. Uma matéria que desenha com palavras os danos da falta de diversidade nas redações de jornais.


Mera confusão ou racismo? O caso da BBC trouxe a questão racial para o centro dos debates públicos novamente. No entanto, é certo que debates sem perspectiva de solução não mudam a realidade. Stephen Frost, CEO e fundador da Frost Included, consultoria de diversidade e inclusão, sabe disso. Por isso, em seu texto, ele trata o assunto de forma direta, embasada, além de apresentar caminhos que mídia e sociedade devem seguir para gerar um ambiente heterogêneo.


Stephen usou seu olhar atento às desigualdades para analisar o erro da empresa de comunicação britânica. O que para muitos pareceria apenas consequência de desatenção, foi interpretado como uma expressão do racismo por algumas pessoas. O CEO, é claro, foi uma dessas pessoas. Com a ferramenta de que dispunha, a escrita, Frost foi categórico em apontar a discriminação. A mídia teria confundido duas personalidades brancas famosas? Essa é uma das perguntas que direcionam o texto.


A matéria usa um trecho do que aconteceu no caso Bryant para dar início à discussão sobre a falta de diversidade nas redações de jornais. Um episódio que poderia ser raro e apenas uma distração se não fosse resultado de uma realidade assombrosa: a maioria das equipes jornalísticas é composta por brancos. Isso não acontece de modo restrito ao Reino Unido, local de origem da emissora, mas também​ em outros lugares, como o Brasil. A exemplo disso, temos a foto publicada pela jornalista Maria Júlia Coutinho quando assumiu a apresentação do Jornal Hoje, da Globo. Na época em que a imagem foi compartilhada, vários seguidores da comunicadora chamaram atenção para o fato de Maju ser a única pessoa não-branca da redação. Esse cenário reflete a realidade de um país que, apesar de ser composto majoritariamente por pretos e pardos, é liderado exclusivamente por aqueles cuja aparência é mais próxima do padrão europeu. Mas a imprensa, chamada de quarto poder, não deveria ser um espaço de promoção de justiça? O questionamento ressoa na mente de qualquer estudante de jornalismo que lê a matéria, criando em nós a vontade de mudar esse cenário.

(Maju Coutinho com equipe do Jornal Hoje. Foto: Reprodução/Instagram)


O resultado dessa homogeneidade são coberturas com grande tendência à discriminação e à exclusão de minorias, como ressalta a matéria. Frost lembra que essa não foi a primeira vez que o erro aconteceu ao citar repetições da atitude realizadas tanto pela BBC quanto por outras emissoras. A estratégia adotada por Frost serve como uma boa referência para jornalistas, que preocupados em ajudar os leitores na formação do próprio senso crítico, querem transmitir uma visão mais ampla dos assuntos abordados.

As situações levantadas são de casos de trocas de imagens durante reportagens, fruto de um racismo velado que retira a individualidade das minorias. Um ato desumano que nenhuma profissão, sobretudo a nossa, que tem a missão de zelar pelos direitos constitucionais, deve cometer.


Em expressões mais explícitas dessas condutas, há inúmeras ocorrências de notícias que alimentam a estigmatização de alguns grupos. Frost não chegou a analisar o cenário brasileiro, porém teria um vasto repertório se assim o fizesse. O exemplo mais recente foi uma matéria do G1, o portal de notícias da Globo, que chamava o Complexo da Maré, conjunto de favelas cariocas, de “bunker de bandidos”. A história repercutiu mal, sendo criticada por alguns comunicadores independentes, como Isabela Reis, jornalista que produz conteúdos antirracistas. O portal de notícias excluiu o texto sem qualquer pedido de desculpas.


A situação dos noticiários brasileiros reforça a tese do fundador da Frost Included de que uma redação sem diversidade resulta em um jornalismo parcial. Nas palavras dele, algo inadmissível em um veículo de comunicação. Frost lembra, de modo direto e impactante, que os jornais tem a missão de informar, apresentando diferentes pontos de vistas, contribuir para a formação da opinião pública e representar a todos. Uma função que precisa ser cumprida com rigor para impedir que violência, desigualdades e exclusões sejam legitimadas contra aqueles que estão em situações mais vulneráveis.


Como muito bem lembrado pelo CEO, todos nós somos tendenciosos e, geralmente, nos aproximamos de pessoas semelhantes. Não há nada de bom ou ruim nisso. Contudo, nos locais de trabalho deve haver cidadãos de diferentes etnias, credos, orientação sexual, entre outros. É em favor disso que Stephen Frost trabalha. A sua empresa, Frost Included, promove medidas de inclusão para empresas e organizações. Ele também já foi chefe de inclusão e diversidade dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Londres, da KPMG, empresa de auditoria e consultoria, além de ter sido o primeiro diretor da Stonewall, organização que faz campanhas pelos direitos de minorias como LGBTs, mulheres, entre outros. É com toda essa bagagem que ele sugere modificações na organização das redações.


Fazendo referência a Daniel Kahneman, professor de psicologia na Universidade de Princeton, Frost aponta que temos duas formas de pensar: uma lenta e outra rápida. A primeira propicia pensamentos mais bem embasados e comedidos, enquanto a segunda é mais propícia a atos falhos. Nas redações, lembra o CEO, esse segundo pensamento é o que vigora. Dessa forma, Stephan ressalta que se as redações continuarem brancas, casos como o de James continuarão a acontecer. O alerta dado pelo autor gera imediatamente o questionamento: é esse o jornalismo que queremos ter acesso? A imprensa tem como um de seus objetivos denunciar e contribuir para justiça social, mas como esse trabalho será feito se a injustiça já está presente nas redações? Para fazer uma cobertura imparcial é preciso abrir espaço para que todos os lados da história sejam apresentados. Esse princípio ético não deve ser aplicado exclusivamente do lado de fora das redações. Ele também deve ser aplicado também no interior desses​ espaços​. Reflexões como essas surgem o tempo todo em cada parágrafo da leitura da matéria do CEO.

(Captura de tela da matéria The importance of diversity in newsroom)


Sendo o trabalho do autor pensar em planos para resolver problemas​ desse tipo, no texto para Forbes ele não fica apenas na crítica, mas também aponta soluções, algo que poucos fazem. A mais óbvia de todas é pluralizar os jornais, admitindo profissionais distintos. De forma muito ponderada, Stephen faz o que poucas pessoas conseguem: reconhecer o trabalho das empresas que contratam funcionários fora do padrão, como a própria BBC, sem deixar de salientar o que ainda precisa ser feito. Uma atitude inteligente que pode ser utilizada por jornalistas para elogiarem certas atitudes sem se tornarem ou parecerem tendenciosos​.


O segundo caminho apontado é apurar. Conforme constata o escritor, informações não checadas colaboram ainda mais para a exclusão de minorias. Infelizmente, ainda há jornais que ignoram uma das premissas mais básicas da profissão. A consequência é justamente a discriminação de que Frost fala, além do descrédito que recai sobre os periódicos, tão necessários à sociedade. Além de útil por reforçar a lição número um da profissão, a dica também abre precedentes para pensarmos na importância da checagem de informações mesmo nos meios mais informais de comunicação, como as redes sociais. Pensamos em conferir a informação quando estamos realizando trabalhos, todavia, dificilmente fazemos o mesmo na internet. Enquanto jovens estudantes de comunicação precisamos refletir sobre o que passamos adiante para não darmos continuidade a essas histórias de injustiça.


No fim de seu matéria, Stephan afirma que a sociedade já é polarizada, não cabendo ao jornalismo piorar a situação. Não há exemplificação de efeitos negativos de uma divisão acirrada dos grupos, entretanto não é nada difícil pensarmos em alguns exemplos recentes. O posicionamento tão de acordo com a ética da profissão do dono da Frost Included até faz pensar que ele é um jornalista. Apesar de não ser, demonstra que conhece e cobra os valores que norteiam o ato de reportar.


The importance​ of diversity in newsroom é um texto que aborda de modo direto e didático os impactos de uma redação excludente na vida social e ensina, por meio da escrita do autor, maneiras eficientes de se comunicar, além de indicar caminhos a serem seguidos. Uma leitura que vale a pena para quem quer entender e mudar o padrão de contratados da mídia. Tudo isso contando, é claro, com o aprendizado de formas inteligentes de se expressar.


Link para a matéria: https://www.forbes.com/sites/sfrost/2020/01/27/the-importance-of-diversity-in-the-newsroom/#f8dd6bc3132e


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