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O vírus maléfico capaz de alcançar os isolados povos indígenas

José Mário Curvo e Ferraz Santos

(Fonte: El País/Raphael Alves)


Em tempos de pandemia, tornou-se necessário o isolamento social para evitar a proliferação do sorrateiro coronavírus. Para grande parcela da sociedade, afastar-se do convívio com outras pessoas foi um grande desafio. Curiosamente, nem todos os cidadãos latino-americanos foram afetados com o isolamento, justamente aqueles que vivem assim há gerações. Os povos indígenas, em sua maioria, vivem em reservas, afastados dos homens brancos e dos seus costumes. Apesar disso, essas comunidades não conseguiram ficar longe de um maléfico organismo do mundo ocidental: o coronavírus. A Covid-19 chegou até aos habitantes nativos das terras brasileiras. Isso não é nenhuma novidade para os indígenas que, historicamente, sofreram com doenças, inclusive na chegada dos europeus na América. O vírus chegou aos sistemas respiratórios dos moradores do suposto pulmão do mundo: a Amazônia. As consequências desse encontro na maior floresta do planeta foram trazidos pelo portal El País, na reportagem Os indígenas da Amazônia lançam um SOS para pedir proteção ante a pandemia dos jornalistas Naiara Galarraga Cortázar, Santiago Torrado e Jacqueline Fowks.


Publicada em maio, durante o pico da doença, a matéria mostra o drama dos indígenas na Amazônia brasileira, colombiana e peruana. Chega a ser simbólico trazer como personagens dessa história os índios da região, pois os cidadãos originários são ignorados por autoridades governamentais, como mostrado no discurso histórico de Ailton Krenak em 1988, em pleno Congresso Nacional. Além disso, a escolha da negligenciada e, ao mesmo tempo, disputada Amazônia foi perfeita para aquele momento, em que a atenção global ainda não estava voltada para a destruição de outros biomas, com o surgimento de notícias sobre as queimadas no Pantanal em setembro.


Como o título da reportagem sugere, os povos indígenas da Amazônia pedem socorro à Organização Mundial da Saúde (OMS) diante do aumento de casos de Covid-19 nas tribos. É lamentável que os índios precisem recorrer a um órgão intergovernamental para pedir um serviço estatal básico. Frente a esse descaso médico brasileiro, colombiano e peruano, torna-se necessário recordar, em pleno século XXI, que indígenas são cidadãos. No governo Bolsonaro, por exemplo, houve o sancionamento do Projeto de Lei 1142/2020, que exclui a obrigatoriedade estatal em disponibilizar alguns serviços básicos de higiene aos povos originários. Mais especificamente, houve o veto no “acesso à água potável”, na “distribuição gratuita de materiais de higiene, limpeza e de desinfecção para as aldeias”, na “oferta emergencial de leitos hospitalares e de terapia intensiva” e na compra “ventiladores e máquinas de oxigenação sanguínea” a essas comunidades.


É destacado na matéria que o risco do vírus dizimar alguns povos está estritamente relacionado ao isolamento das tribos indígenas. Em alguns casos, a UTI mais próxima está localizada a quase 850 quilômetros de distância, em Manaus. No exemplo colombiano, a situação chega a ser mais grave: o único local de tratamento intensivo fica a mais de 1000 quilômetros das comunidades. Embora haja alguns hospitais públicos nas proximidades, ou há poucos leitos para a demanda ou a situação é precária. Em Caballococha, no Peru, há apenas um médico para 3.000 pessoas, a maioria delas com Covid-19, mas não há testes nem medicamentos no posto de saúde.


O texto responde também uma das maiores dúvidas do leitor que abre a notícia: como povos originários, que vivem isolados, entraram em contato com o vírus? Acontece que, afinal, eles não estavam tão sozinhos assim. É explicado a transmissão do coronavírus para os nativos americanos, mas somente os casos brasileiros e colombianos. Há, portanto, uma falta na justificativa para a contaminação do coronavírus em indígenas da Amazônia peruana.


Para destacar as causas da contaminação dos indígenas em solo brasileiro, a reportagem optou por usar um argumento de autoridade. No caso, a antropóloga Manuela Carneiro da Cunha, da Comissão Arns, foi a entrevistada. Essa tática foi bem usada pela matéria, pois aumenta a capacidade de convencimento do leitor ao ler uma informação vindo diretamente de um especialista, em vez de uma apuração de algum repórter. A antropóloga explicou que as contaminações dos povos originários é causada pelos invasores de reservas indígenas, que buscam explorar os recursos dessas terras devolutas, isto é, pertencentes à União. Além disso, segundo ela, há uma falha do Estado em oferecer políticas públicas a essas populações isoladas.

Já para explicar a questão colombiana, a reportagem utilizou a apuração do jornalista para explicar as contaminações. Não que esteja errada, até porque um portal do porte do El País não permitiria a publicação de qualquer informação sem checá-la antes. No entanto, em um Brasil onde fake news estão presentes no cotidiano e onde há uma crescente descrença aos fatos, a afirmação, sem a confirmação de um especialista, abre brechas para alguns leitores duvidarem, erroneamente, da informação. É equivocado, porém, é a realidade de uma sociedade doente.


Foi destacada também uma diferença observada no texto entre Brasil e Colômbia: a atuação governamental. O texto fez essa comparação de maneira sútil, sem aparente partidarismo e sem explicitar a intenção - clara aos leitores mais atentos - de demonstrar a diferença do tratamento de ambos os Estados com os povos originário. De acordo com a reportagem, o governo de Iván Duque demonstrou atenção aos casos de Covid-19 na Amazônia, inclusive com visita do ministro da saúde à região garantindo entrega de mantimentos aos nativos. Já o governo Bolsonaro demonstrou um certo negacionismo à perigosidade do vírus e à ciência, com declarações, até certo ponto, irônicas e desrespeitosas às vítimas da doença. Além disso, os brasileiros puderam acompanhar a saída de dois ministros da Saúde durante a pandemia e o presidente realizando aparições públicas sem máscaras, com direito a aglomerações.


Em síntese, apesar de sentir falta de uma maior especificação na situação peruana, o texto vale a leitura devido à dedicação em mostrar a negligência médica aos povos indígenas. O fato de retratar povos da Amazônia é simbólico. Tal simbologia é representada com uma excelente metáfora ao relacionar uma doença, que ataca as vias respiratórias, à floresta, conhecida como pulmão do mundo. Vale falar também que ideia de mostrar a situação amazônica em três países diferentes foi interessante para realçar a grandeza dessa floresta, que ainda se estende por mais seis nações.


Para além da área da saúde, foi importante ressaltar, de maneira sútil, o descaso do governo brasileiro com os indígenas amazônicos, ao citar invasores às reservas e falta de adaptação das políticas públicas a essas comunidades. Por causa dessa crítica nas entrelinhas, vale a pena recomendar essa leitura, que pode ajudar os cidadãos a refletirem sobre algumas tomadas de decisões de políticos em relação a grupos negligenciados. Aliás, os jornalistas cumpriram bem a sua função social ao publicar essa problemática de um grupo negligenciado tanto pelo governo quanto pela sociedade.


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