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Uma cria da Zona Oeste no Profissão Repórter

Atualizado: 8 de ago.

Rayssa Queiroz


Mesmo nascida no bairro de Campo Grande, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, a jornalista Júlia Sena compartilhou as dificuldades e inseguranças de adaptação quando precisou se deslocar todos os dias até a Escola de Comunicação da UFRJ, na Praia Vermelha. A carioca de 26 anos relembra tudo que passou para conquistar seu sonho de trabalhar no programa da TV Globo, “Profissão Repórter”.

Foto: Acervo pessoal


“O meu objetivo ao ir para a UFRJ era realmente ser grande, crescer e chegar onde eu estou hoje no Profissão Repórter. Eu tinha que fazer tudo que fosse possível para que esse caminho não fosse atrapalhado por nada.” Foi assim que, no segundo semestre de 2015, enquanto cursava jornalismo na UFRRJ, Júlia decidiu mudar para a UFRJ, a fim de encontrar melhores oportunidades na zona sul, onde o campus se localiza. No início, ela passou a morar com seu tio na favela da Maré - que, apesar de ficar na zona norte e não ser próxima da faculdade, ainda assim era mais viável do que Campo Grande.


Quando questionada sobre as diferenças em relação à turma, Júlia relembra uma dinâmica realizada por sua professora na primeira semana de aula, que os fez perceber como, apesar de ocuparem o mesmo espaço na universidade, eles não ocupavam o mesmo lugar na sociedade. Foi difícil ver como as pessoas lidavam com seus privilégios e era assustador se sentir perdida em meio a tantas realidades. Sendo moradora da Maré, ela precisou lidar com muita violência escancarada e dificuldades de deslocamento.


”Um dia eu estava voltando da faculdade e, quando olhei para a Avenida Brasil, tinha um caveirão chegando para entrar na Maré. Eu sabia que iria começar uma operação. A minha primeira atitude foi correr, porque eu queria chegar em casa antes do caveirão entrar na favela, se ele entrasse iria começar a operação e eu ficaria fora sei lá quantas horas até conseguir entrar e descansar. Naquele dia eu tinha tido prova, estava muito cansada.”


Apesar das dificuldades, a ex-estudante da ECO ressalta a importância da mistura de realidades dentro da universidade. Para ela, embora as pessoas que vêm de fora possam se sentir deslocadas, fora da zona de conforto, é um momento de reconhecer e ter orgulho das suas raízes. “A gente poder ter orgulho de onde a gente vem e falar de onde a gente vem mesmo com todos os problemas, no final das contas é uma vitória.”


Segundo Júlia, o olhar do jornalista também é construído por meio das suas vivências. Se alguém se mantém preso a uma realidade, aquele será seu único referencial. Ela conta como sua realidade ajudou a ampliar seu olhar e trabalhar com diferentes perspectivas. “Eu quero ser jornalista porque eu quero de alguma forma transformar a realidade das pessoas que me cercam.[...] Eu não seria a jornalista que eu sou se eu não tivesse vindo de onde eu vim, e passado pelas experiências que eu passei.”


Em 2022, Júlia precisou se mudar para São Paulo para viver o seu sonho profissional de trabalhar no Profissão Repórter. Diz que tem sido um momento muito desafiador: “Estar fora da sua cidade, em um lugar novo, sem referenciais, sem rostos conhecidos. Mas é uma experiência muito gostosa de descobrir e viver”. Para o jornalismo, Júlia afirma que o lado bom de estar em um lugar diferente é ter um olhar livre de preconceitos e curioso para o novo.


“Aqui eu me senti em um lugar completamente novo e desconhecido, cheio de desafios e que onde eu tinha que me cuidar sozinha, porque todos os meus referenciais não fazem parte dessa cidade. Quando você se vê nessa situação é um baita desafio, muitas vezes é desesperador, dá medo, você tem vontade de ligar para sua mãe chorando. Mas ao mesmo tempo tudo é uma novidade, também é uma experiência legal se jogar no novo.”


Sobre o futuro do jornalismo, Júlia Sena afirma que acredita no encaminhamento de um jornalismo mais plural nas grandes redações. Ela enfatiza a importância de todos produzirem notícias e afirma que o tipo de notícia elitista, que por muito tempo foi condicionado, não é mais procurado, já que as pessoas procuram saber mais sobre a realidade. Em suas palavras, as coisas estão mudando a passos lentos, mas estão mudando cada vez mais.


O jornalismo foi um sonho cultivado por Júlia desde muito nova: ela se encantou pela profissão, e, em especial, pelo “Profissão Repórter”. Para Júlia, é inacreditável poder estar vivendo e realizando o que sempre quis.


Como conselho para os novos estudantes migrantes da ECO, Júlia afirma que o importante é lembrar de onde se vem, pois isso impulsiona sonhos e amplia redes de apoio. “A gente aprende a chegar em qualquer lugar se souber de onde a gente veio e se a gente carregar essa certeza. [...] Quando ficar difícil lembrem que as nossas certezas podem construir caminhos incríveis."


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