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Reportagem sobre aborto nos EUA ilustra crescente conservadorismo no país

Clarice Lopes

(Imagem: Mónica González / El País)


Saint Louis, Missouri. Em frente à última clínica de abortos aberta no estado, há uma fila de devotas que rezam e seguram cartazes com mensagens “pró-vida”. Entretanto, o número de religiosas geralmente é pequeno, assim como o de abortos: em uma semana de outubro, no estado de 6,2 milhões de habitantes, o procedimento só foi feito duas vezes. Estranho, não? A reportagem Fazer a mala e abortar em Illinois, escrita pela jornalista Amanda Mars para o El País, revela os fatos que explicam esse cenário.


Amanda Mars é Bureau Chief (quem gerencia um grupo de repórteres em um local diferente de onde a sede do veículo midiático está localizada) do El País nos Estados Unidos e correspondente do jornal em Washington, DC. Fazer a mala e abortar em Illinois, publicada no dia 22 de outubro, é a segunda de uma série de três reportagens intitulada Estados Rotos de América. As outras duas também têm títulos instigantes (Jesus é meu Deus, Trump é meu presidente e eu quero ser de Idaho e Seis homens, um porão e um plano para iniciar uma guerra civil nos EUA) e conteúdo que vale muito a leitura. Nelas, a jornalista trata de assuntos controversos a fim de retratar a polarização da sociedade norte-americana.


A médica entrevistada para a matéria, Colleen McNicholas, tem 39 anos e atua na clínica de abortos em Saint Louis. Ela dá ao leitor um panorama interessante: quando nasceu, havia 30 clínicas operando para essa finalidade no estado; quando entrou na faculdade, 10. Hoje, resta uma, administrada pela associação de planejamento familiar Planned Parenthood. E, adivinhe? Quase fechou as portas no ano passado. “E resta por milagre, ou melhor, por causa de um juiz”, aponta Amanda Mars, com tom irônico. De acordo com o texto, o fato é que a lista de exigências para que esses estabelecimentos funcionem cresceu com o passar dos anos, resultado de ações das autoridades conservadoras do Missouri. Novas limitações ao aborto também surgiram em locais como Iowa, Mississippi, Alabama e Louisiana.


Em seguida, a reportagem mostra o outro lado da situação, que explica o título escolhido para o texto. Se no Missouri o direito ao aborto está sob crescente ameaça, a melhor opção parece ser fazer a mala e viajar para o território vizinho, Illinois, onde as coisas funcionam de forma bem diferente. Não só no Illinois, aliás; outros estados democratas como Nova York, Vermont e Rhode Island aprovaram novas leis e regulações com o objetivo de facilitar o procedimento e proteger, contra forças conservadoras, o direito ao aborto. Nas palavras certeiras de Amanda Mars, “Nenhum lugar é melhor que a ponte sobre o rio Mississippi, esses 20 minutos que separam Missouri de Illinois, para contemplar uma sociedade partida”.


A matéria também destaca que o processo até que a intervenção seja realizada ocorre de maneira distinta em cada estado do país. Por exemplo, no Missouri há uma espera obrigatória de 72 horas entre a primeira consulta da paciente e o momento em que o aborto é feito. Além disso, os planos de saúde só cobram o custo do procedimento se a gestação apresentar risco à vida da mulher. Porém, do outro lado do rio, isso não acontece: “Em Illinois, as mulheres não precisam passar por essas 72 horas de reflexão, e as que estão em uma situação econômica mais vulnerável têm os gastos cobertos pelo Medicaid (programa público de saúde para pessoas carentes)”, explica a jornalista.


Por fim, a reportagem aborda uma perspectiva histórica e traz reflexões sobre o futuro do direito ao aborto nos Estados Unidos. Lá, a interrupção voluntária da gravidez foi legalizada em 1973, após a sentença da Suprema Corte no caso Roe versus Wade. O argumento determinante na decisão foi o direito da mulher à “privacidade”, o que deixou uma brecha para questionamento. Como isso pode fazer diferença no futuro? A autora da matéria esclarece: “Várias das legislações mais restritivas do aborto, paradas em instâncias judiciais inferiores, visam a levar a batalha jurídica de volta ao tribunal mais poderoso, agora com maioria conservadora reforçada, para que finalmente torne a se pronunciar”. Inclusive, quatro dias após a publicação do texto, o Senado dos EUA aprovou o nome da juíza Amy Coney Barrett para a Suprema Corte, consolidando supermaioria conservadora no Tribunal. Barrett já se posicionou contra o aborto, assim como fez Donald Trump, descrito na matéria como “uma espécie de herói do movimento antiabortista”.


Fazer a mala e abortar em Illinois é uma leitura importante, principalmente neste momento em que acompanhamos a acirrada disputa pela presidência dos Estados Unidos e a vitória de Joe Biden. O texto, produzido pouco tempo antes da eleição, é uma boa recomendação para jornalistas que querem se aprofundar nas questões que normalmente dividem Democratas e Republicanos e tornam o país uma “sociedade partida”. Amanda Mars escolheu o aborto — assunto considerado tabu — para ilustrar a polarização política e geográfica da sociedade estadunidense e fez um trabalho excelente em pontuar e desenvolver informações que mostram como a legalidade da intervenção está sob ameaça dos grupos conservadores, os quais ganham cada vez mais força.

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