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Relato de um náufrago e um retrato da mídia

Giuliana Falci


O livro Relato de um náufrago reconta a trajetória de Luís Alexandre Velasco, marinheiro que ficou à deriva no mar em uma balsa durante dez dias, sem comer ou beber, munido apenas de um relógio, as roupas do corpo, dois remos e sua própria companhia. A narrativa foi escrita por Gabriel García Márquez, quando o futuro ganhador do prêmio Nobel de literatura ainda era um jovem jornalista em início de carreira no jornal El espectador, no ano de 1955.


Capa do Livro (Imagem: Reprodução - Editora Record)


Luís Alexandre Velasco foi o único sobrevivente do acidente no destróier Caldas em que estava embarcado, ocorrido em 28 de fevereiro de 1955, no Mar do Caribe. Depois de ser socorrido e levado para terra firme, sua história foi contada como um ato heroico pelos jornalistas alinhados com o então regime ditatorial de Gustavo Rojas Pinilla. Sob censura, a imprensa contrária ao regime – como era no caso do El Espectador, no qual García Márquez trabalhava – buscava assuntos que ao mesmo tempo interessassem a seus leitores e que fugissem do escopo político.

No mês seguinte à divulgação de sua história, já conhecida pelo público, Velasco foi em busca de García Márquez, querendo que o jornalista a recontasse. Meio desinteressado pelo que lhe parecia uma história já sem novidades, o repórter aceitou e partiu para uma série de entrevistas com o marinheiro: foram 20 sessões de 6 horas diárias de conversa. O que o jornalista não esperava, no entanto, era a declaração valiosa do marinheiro desmentindo a versão oficial do acidente.


Nos jornais do regime, a informação disseminada dizia que o destróier havia passado por uma tormenta, o que teria gerado o acidente. Mas o marinheiro confessou a Márquez, consciente da relevância de seu relato, que nunca houve na verdade uma tormenta. O que levou 8 homens ao mar foi, na realidade, um forte vento que soltou uma carga ilegal transportada na embarcação. Era contrabando. O sobrepeso foi responsável pelas mortes dos tripulantes, uma vez que ele impediu o destróier de manobrar.


O El Espectador publicou a história do marinheiro como relatos em primeira pessoa, dividido em episódios, inicialmente celebrados pelo governo. O que parecia a repetição de uma história conhecida trouxe uma informação exclusiva e surpreendente, e, quando ela foi revelada, a busca pelos jornais disparou.


O governo, no entanto, não mandou impedir sua circulação do jornal. Apostou na disseminação de um comunicado “desmentindo” a história, dizendo que não havia contrabando algum. García Márquez, a fim de preservar sua carreira e sua credibilidade jornalística, pede a Luís Alexandre que busque por amigos que possuíam registros em foto da embarcação, a fim de comprovar a presença da carga ilegal. Tais fotos foram publicadas posteriormente, em um suplemento com a história já divulgada. Feito isso, o governo se encarregou de atacar o jornal constantemente, o que gerou seu fechamento algum tempo depois da publicação.


O episódio revela uma dificuldade do exercício jornalístico pleno, em meio a um conflito de interesses no período ditatorial, que ditava o que deveria ser dito, quem deveria ouvir e como se deveria ouvir. Mesmo que o relato do naufrágio não implicasse necessariamente em um acontecimento político, todo o contexto do país na época influenciou na forma como a notícia foi passada, dada a importância e a proporção que tomou a narrativa de Luís Alexandre.


Em um trecho, o marinheiro revela:


“Não fiz nenhum esforço para ser herói. Tudo o que fiz foi para me salvar. Mas como a salvação veio envolta numa auréola, premiada com o título de herói como um bombom com surpresa, não tive outro recurso senão suportar a salvação, como havia chegado, com heroísmo e tudo” (p. 125).

A aventura vivida por ele e narrada por Gabo mostra uma surpreendente mudança da narrativa e se transformou em exemplo de como uma história muitas vezes contada ainda pode esconder uma surpresa jornalística.


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