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Persépolis: resgate da herança iraniana em quadrinhos

Beatriz Amat


O universo da literatura em HQ, em muitos casos, se entrelaça com o mundo jornalístico. Histórias podem ultrapassar a ficção e documentar, com profundidade, momentos históricos marcados por turbulências políticas e sociais. É assim que pode ser entendida a autobiografia em HQ Persépolis, escrita e ilustrada pela iraniana Marjane Satrapi.




A obra relata a história da autora iraniana desde os 10 anos. Nascida em Resht, Irã, Marjane cresceu numa família com influências socialistas e progressistas por parte de seus pais. Era uma menina com opiniões fortes e devoradora de livros de pensadores históricos. Bisneta de Nasser al-Din Shah, xá da Pérsia de 1848 a 1896, Satrapi era filha de um engenheiro e uma designer de vestidos, e tinha uma vida confortável. No entanto, em 1978, um acontecimento estrondoso político mudaria completamente sua história.


As revoltas populares no país ganharam força, alimentadas pelo desejo de melhorias na economia e pela insatisfação com o domínio dos xás. Em 1979, o último xá foi deposto. A Revolução Iraniana se tornava um símbolo de esperança para grande parte da população — mas esse não foi o desfecho da história.


O entusiasmo persa não passou de ilusão e foi substituído por desencanto. Sob o comando do Aiatolá Khomeini, um Estado teocrático e opressor passou a governar com radicalismo e perseguições políticas. Em seu livro, Marjane Satrapi descreve o caldeirão que o país virou, marcado por violência política e transformações sociais e culturais. Acontecimentos de sua vida são o fio condutor para resgatar a herança histórica iraniana e, por meio de sua arte em HQ, visualizar e recontar essa história sob um olhar muito pessoal. As ilustrações em PB, todas da própria Marjane, ajudam a retratar, com tons de humor e seriedade, os conflitos e repressões que aconteceram no país e em sua vida. Satrapi conta ainda que optou pelo minimalismo da tinta preta e branca para tornar mais fluida a leitura de sua história, e permitir o leitor mergulhar na essência de suas memórias afetivas, positivas e negativas.


A autora relembra, por exemplo, a implementação do uso obrigatório do véu e a política que proibia músicas e artigos considerados ocidentais. No auge da repressão institucionalizada no país, a autora conta a execução de seu tio, opositor político preso pelo governo.


Outro ponto de destaque na história é o relato da Guerra Irã-Iraque pela luta do controle de petróleo da região. A autora assume um tom crítico ao analisar a intervenção de países hegemônicos, como o Reino Unido, ao incentivar a guerra por meio do fornecimento de armamentos e se apoiar na instabilidade política do Irã para concretizar seus interesses. O estado de guerra que se instalou no país conseguiu mudar não somente a história do Antigo Império Persa, mas também, para sempre, a vida de Marjane.



A transformação histórica e a violência política são narradas a partir de acontecimentos da vida da autora, como quando sua vizinha e amiga foi morta pelos ataques de mísseis balísticos iraquianos. Aos 14 anos, Marjane foi enviada pelos pais para Viena, na Áustria, com o objetivo de proporcionar a ela uma vida mais segura e livre. Longe de sua cultura e sua família, o refúgio na Europa é retratado como um caminho triste e solitário.


Persépolis acerta em cheio ao escolher o ponto de vista de um adolescente para relatar a Revolução Fundamentalista do Irã e seus desdobramentos políticos e sociais. O relato biográfico de Marjane Satrapi, além de recuperar suas lembranças, serve como um resgate da cultura iraniana no decorrer de sua conturbada história.


Escrita em 1999 e publicada em 2000, a HQ sintetiza a transição do governo iraninao e os impactos sentidos pela nação. Renomada internacionalmente, a autora de Persépolis surpreende como contadora de histórias e permite, através de desenhos em quadrinhos, narrar os acontecimentos recentes no Irã, intercalando-os com nuances doces e ácidas da vida e da cultura persa.


Ficha técnica


Obra: Persépolis (Completo)

Autora: Marjane Satrapi

Tradução: Paulo Werneck

Editora: Quadrinhos na Cia

Ano de lançamento no Brasil: 2007

Preço médio: 40 a 60 reais

Onde achar: Livrarias físicas e online; sebos.





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