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Os rótulos da mídia sobre os jogadores africanos

Atualizado: 12 de fev.

Amanda Zola


Força, velocidade e baixo nível técnico: essas são algumas das narrativas que a mídia endossa sobre os jogadores africanos. Esses rótulos muitas vezes expressam racismo, e os atletas acabam sendo desassociados de suas verdadeiras características.


O jornalista italiano Ferdinando Cotugno fez uma reflexão sobre o tema ao escrever um texto para a Rivista Undici chamado “Per decolonizzare la narrazione dei calciatori africani” (em português: “Para descolonizar a narrativa dos futebolistas africanos”). Nele, Cotugno cita dois jogadores nigerianos: Simeon Nwankwo, também chamado de Simy, e Victor Osimhen. Simy, que atualmente disputa a série B italiana pelo Crotone, é um atacante alto e com fama de caneleiro, conseguiu marcar mais de 20 gols mesmo com o seu time na lanterna da Série A. Osimhen, atacante do Napoli, graças à sua boa leitura de jogo e constante movimentação, marcou 10 gols em sua temporada de estreia na Série A. Ambos têm características distintas, porém, por serem do mesmo país, são alvos de estereótipos semelhantes: bom físico e velocidade. “Não somos iguais. Nunca seremos todos iguais. Eu sou o Simy, tenho quase dois metros de altura e isso me dá vantagens e desvantagens. Com os pés e a cabeça chego a alturas onde os outros não chegam, mas em espaços apertados não sou o Messi. Assim que me dão a bola, tenho que chutar”, declarou Simeon após comparações com o seu compatriota Osimhen.


(Simeon Nwankwo comemorando seu gol pelo Crotone. Foto: Reprodução.)


Quando se fala de jogadores africanos, a inteligência técnica raramente é mencionada. Os rótulos são muito mais frequentes. O jogador do Napoli - cobiçado pelo Real Madrid -, por exemplo, foi o melhor de sua equipe em diversas partidas, mas foi sempre tratado pela mídia italiana a partir de semelhanças com Nwankwo. Diante disso, Cotugno questiona: “Simy e Osimhen estão crescendo e, no processo, ajudando a reescrever o jogo, a questão é: estamos crescendo também? Quanto perdemos em falar mal de jogadores cuja origem parece já nos dizer tudo?”.


(Victor Osimhen comemorando seu gol pelo Napoli. Foto: Reprodução.)


Em mais um caso de tratamento estereotipado de jogadores de origem africana, o jornal desportivo italiano Gazzetta dello Sport publicou, em outubro de 2020, uma matéria com o título “Koulibaly, Baka e Osimhen: adesso il Napoli mette i muscoli” (tradução: Koulibaly, Baka e Osimhen: agora o Napoli está colocando seus músculos), reforçando a narrativa de que os jogadores africanos são fortes fisicamente. Mas, pelas características dos jogadores citados, apenas o zagueiro Koulibaly poderia ser associado à força física, algo que não é a marca dos outros dois.


Ao refletir sobre o assunto, o jornalista italiano cita a obra do antropólogo esportivo Bruno Barba, que ressalta como o racismo disfarçado de opinião reforça os rótulos sobre os jogadores africanos:

O antropólogo esportivo Bruno Barba, em seu último livro O corpo, o rito, o mito (Einaudi), lembra que esse tipo de visão (ele dá como exemplo o caso de atletas negros que "não podem defender porque não sabem se concentrar", por uma frase semelhante dita sobre o alemão Antonio Rüdiger, o ex-jogador Stefano Eranio foi demitido da TV Suíça) não são opiniões ingênuas e inocentes, mas levam ao "essencialismo, ao racismo e consequentemente ao racismo". Não são apenas aqueles que decidem ser racistas, mas também aqueles que não sabem que são. "A pele é cultural", escreve Barba, "sempre que se fizer referência ao "corpo do atleta", teremos, portanto, que fazer um esforço de abstração, ou melhor, um ato de "descolonização de nossa imaginação" e pensar em dons naturais que são sempre moldados e adaptados do ambiente. É a cultura que determina (falando do esporte, também do treinamento) a história individual, os recursos morais, a vontade”.

Jogadores de origem africana precisam ser desassociados desses estereótipos. Eles não são iguais. Cada jogador possui sua singularidade e não deve ser visto de modo generalizado, apenas com bom físico, velocidade ou bom cabeceio. Ter alguma dessas características não é ruim, mas eles também têm boa técnica e inteligência. Por que a mídia não impõe o mesmo discurso com jogadores europeus? Visto como natural e típico do esporte, esse tipo de tratamento na verdade exala o traço racista de parte da imprensa esportiva.

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