Objetos Cortantes é jornalismo a sangue quente
- Pitacos

- 23 de jul.
- 4 min de leitura
Por João Pedro Mendes Dias
Um assassinato brutal estremeceu a comunidade de uma pequena cidade rural. As crianças? Agora, ficam em casa. As armas? Logo na cabeceira. E, por mais que ninguém queira admitir, todos olham um pouco torto para o vizinho. Apesar de se assemelhar à sinopse da infame obra de Truman Capote, A sangue frio, um dos principais textos do new journalism, esta é a premissa do romance de estreia de Gillian Flynn. Uma jornalista que, de dia, escrevia sobre Hollywood como crítica de TV na Entertainment Weekly, e, de noite, debruçava os dedos sobre Objetos cortantes.

Publicado originalmente nos Estados Unidos, em 2006 como Sharp objects, o livro aborda intensamente temas como depressão, automutilação e violência. Em 2015, foi lançada a primeira edição em português pela Editora Intrínseca. E em 2018, A obra foi adaptada em uma minissérie na HBO estrelada por Amy Adams.
Diferente de Truman, a protagonista do romance, Camille Preaker, não é uma autora consagrada. É uma repórter policial de um jornal de quarta categoria em Chicago, o Daily Post. Ela recebe uma missão do seu editor: voltar à sua cidade natal e escrever uma reportagem que eleve o nível do veículo. Encurralada, Camille se vê de volta a Wind Gap, no Missouri, e, com gravador, bloco e caneta, anda pela cidade esbarrando em corpos (literais) e em fantasmas do próprio passado.
O processo de reportagem não é o ponto central da narrativa. Mas, como repórter, Camille tem seus momentos de brilhar:
“O corpo de Natalie Keene foi encontrado em 14 de maio, enfiado na vertical entre o salão de beleza Cut-N-Curl e a Bifty’s Hardware. Ann Nash, de 9 anos, foi encontrada em um riacho em agosto do ano passado. As duas garotas foram estranguladas, ambas tiveram os dentes arrancados pelo assassino”.
A sua intenção não é encontrar o culpado, mas sim fazer um retrato da cidade enlutada, do novo toque de recolher e do desespero das mães.
A busca por imparcialidade é um dos pilares do jornalismo moderno, e essa ideia aparece no texto de Camille. Mas o desespero é também o da mãe dela, que se preocupa com a filha mais nova. O toque de recolher é o que a sua irmã insiste em quebrar. Ela tenta reportar como uma figura distante, uma mera observadora, mas está no centro do quadro que está pintando. O tempo fora da cidade a tornou uma espécie de forasteira. Agora, ela volta a fazer perguntas e a cutucar feridas, e não sabe bem se ter nascido ali ajuda. “Curry estava errado: ser dali distraía mais do que ajudava”, conta a repórter.
O papel da jornalista não é compreendido em Wind Gap. E Camille não se considera o tipo de repórter que se delicia ao entrar na intimidade das pessoas, julga que talvez por isso não seja uma das melhores. Logo no início da investigação, a personagem ouve que “uma pessoa decente teria se demitido antes de escrever sobre crianças mortas”.
Tudo indica que Camille Preaker é uma má repórter. Ela não grava nem investiga o suficiente. Bebe demais em horas comerciais. E não tem um grande (ou mínimo) compromisso com a ética. Com o lançamento da série, o jornalismo na obra foi questionado pela Vulture, pela Elle e pelo The Atlantic. Mas, inegavelmente, o livro oferece uma leitura eletrizante, que inclui um processo jornalístico que não é, e nem se propõe a ser, de modo algum, um manual de como fazer uma reportagem.
Não sou tão exigente quanto os colegas dos veículos citados. Eu defendo Camille Preaker. O The Atlantic, em específico, encaixa a personagem na tendência de reproduzir um estereótipo: o da jornalista antiética. Na literatura, no cinema e na televisão, as personagens repórteres tendem a não ter escrúpulos, a se relacionar romanticamente com o chefe, com as fontes, a serem hipersexualizadas e a fazer tudo por um furo. Camille se difere do resto dos exemplos citados. Ela comete muitos erros, mas não necessariamente em prol do jornalismo.
Ser disfuncional enquanto repórter é um reflexo do resto da sua vida. Seis meses antes de começar a reportagem, ela saiu de uma internação de 12 semanas em uma instituição de tratamento psiquiátrico. Deem um tempo para ela. Inclusive, o seu editor, Frank Curry, a visita e leva flores. Essa é outra peculiaridade da obra: a relação entre os dois é quase a de pai e filha. Se aproximar demais é uma especialidade de Preaker.
Na ficção, o jornalismo cheio de tropeços e feito a sangue quente é um ótimo entretenimento. Há a possibilidade de cruzar linhas que ficam melhores quando bem desenhadas na vida real. A história de Camille tira o repórter de um lugar intocável e revela uma face mais sensível do trabalho. No caso dela, talvez até demais. Ela é afetada por suas descobertas. Se desgasta. Mostra o desconforto ao lidar com cenas tão obscuras. Talvez o que a faça uma má repórter seja ser tão boa como humana.
Apesar de alguns spoilers no texto, garanto que ainda há muito mais para se surpreender nessa obra.





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