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O retrato da violência policial pela mídia

Atualizado: 31 de out. de 2023

A postura da mídia mediante a casos de violência policial


por Milena Silva



O Ódio Que Você Semeia - Thomas, Angie O Ódio Que Você Semeia - Thomas, Angie Amzon (Reprodução/Pinterest)

Starr está apenas voltando de uma festa com seu amigo Khalil, matando as saudades das conversas que não tinham há muito tempo, quando são parados por um policial por não darem a seta ao mudar de faixa. Os pais de Starr, uma menina negra, a prepararam para essas situações desde pequena. “Não faça movimentos bruscos. Deixe sempre as mãos à mostra. Só fale quando te perguntarem algo. Seja obediente.” Ela segue isso, mas Khalil não. Ela fica parada, Khalil tenta pegar uma escova apenas para se arrumar, como sempre gostou de fazer. De repente, um barulho, Khalil está no chão, Starr está chorando. A protagonista do livro O ódio que você semeia, vê, em um piscar de olhos, sua vida mudar e seu melhor amigo ser morto.



Cena da adaptação audiovisual do livro "O Ódio que Você Semeia", onde Starr e Khalil estão indo embora da festa no carro dele. (Reprodução/O odio que você semeia, 2018)

Starr assiste a morte de seu melhor amigo sem poder fazer nada por ele. Ela sabe que Khalil não estava com coisa alguma, não reagiu, não atacou, não fez nada, mas morreu. E ser um jovem negro o torna culpado, não a vitima. Quando a mídia começa a repercutir o caso, passa a pôr a vida de Khalil como motivo de sua morte, culpando-o e deixando de lado o policial que tirou dele essa mesma vida. O livro retrata muito bem como, em casos de violência policial, a vítima passa a ser a suspeita número um da agressão que sofreu. Em inúmeros casos, assim como aconteceu com Khalil, vemos a pessoa tendo a sua vida inteira destrinchada para saber qualquer coisa que justifique a violência sofrida. Na maioria das vezes, tendem a correlacionar a vida dessa pessoa à criminalidade do lugar onde mora e é dessa forma que fazem com Khalil. Ao descobrirem que ele tinha começado a vender drogas, tornaram o policial que atirou nele inocente, já que tinha matado um traficante. Mesmo que na hora de sua morte, ele não estivesse vendendo nada e nem com droga alguma.


Khalil teve seu carro parado por parecer suspeito e não voltou pra casa, assim como Evaldo dos Santos, que teve seu carro alvejado por mais de 80 tiros por uma confusão dos militares. Militares esses que tiveram chance de defesa e de explicar o que pensaram na hora de atirar contra um carro de uma família mais de 80 vezes, chance essa que foi tirada de Khalil e Evaldo. Khalil teve sua escova de cabelo confundida com uma arma de fogo, assim como Jhonata Dalber, um adolescente de 16 anos, que teve um saquinho de pipoca confundido com drogas e por isso foi morto com um tiro na cabeça ou como com Jorge Lucas, de 17 anos, e Thiago Guimarães, de 24 anos, que tiveram um macaco hidráulico, que levavam em uma moto, confundido com um fuzil. Khalil teve sua vida rapidamente ligada ao tráfico de drogas, assim como centenas de vítimas de confronto policial tem suas mortes deslegitimadas para justificar a ação brutal dentro das comunidades.



Jhonata Dalber Matos Alves, 16 anos, Morro do Borel, na Tijuca, Zona Norte, em 2016.(Reprodução/Extra)

Músico Evaldo dos Santos Rosa, 51 anos, assassinado em Guadalupe, Zona Norte do Rio de Janeiro, em 2019. (Reprodução/La Voz de Bolivia)

Jorge Lucas Martins Paes, de 17 anos, e Thiago Guimarães Dingo, de 24 anos, no Morro da Pedreira, Costa Barros, na Zona Norte, em 2015. (Reprodução/Extra)

O livro demonstra de forma muito didática e em um tom leve, apesar do assunto pesado e complexo, como pessoas negras de periferia têm em suas costas um alvo pela polícia e um crachá de“Culpado”dado pelas narrativas propagadas pela mídia. Ainda que não estejam em nenhuma situação suspeita, mesmo em seu dia a dia, em casa, indo para escola, etc, sempre estarão pintadas com esse alvo, que parece ser feito de tinta permanente e desse crachá que foi costurado em suas peles. Os agressores são sempre ouvidos, buscasse um entendimento e justificativas para as ações tomadas, dando a chance de defesa para eles, enquanto para as suas vítimas isso tenha sido negado e por isso, na maioria dos casos, tenha custado a vida delas. Suas mortes são sempre desconsideradas, com a criação de uma narrativa em que as vidas dessas pessoas são ligadas ao tráfico, apenas por morarem em comunidades. Suas famílias clamam pela inocência de seus entes queridos, mas o que importa mesmo é a história contada por um policial que apenas atirou sem ao menos perguntar nada e a foto desenterrada pelos jornalistas de 2012 em que a pessoa morta posava ao lado de um amigo de infância, que viria a se tornar um traficante conhecido. A vítima tinha um trabalho de carteira assinada e estudava, mas o que importa é que no momento ele estava com um objeto suspeito, num lugar suspeito, com uma roupa suspeita e uma cor suspeita.



Uma cena da adaptação audiovisual do livro "O Ódio que Você Semeia", onde Starr fala em um protesto pela inocência de Khalil. (Reprodção/O ódio que você semeia, 2018)

Uma cena da adaptação audiovisual do livro "O Ódio que Você Semeia", onde Starr fala em um protesto pela inocência de Khalil. (Reprodução/Extra)

A narrativa de O Ódio que Você Semeia, reflete muito bem como a nossa sociedade ainda vê pessoas negras. O discurso midiático inflama ainda mais a opinião pública a colocar as vítimas dessa violência constante num lugar de culpado, enquanto inocenta seus agressores e os colocam em um pedestal de heróis.



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