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O relatório do IPCC: uma previsão trágica para o futuro

Rafaela Gama



(Logo do IPCC divulgado pela Nações Unidas)


O Intergovernmental Panel on Climate Change, mais conhecido pela sigla IPCC, é a organização científico-política da ONU responsável por analisar e divulgar pesquisas sobre as mudanças climáticas. Criado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente e pela Organização Meteorológica Mundial em 1988, hoje conta com 195 Estados-membros. Os seus relatórios contém explicações para os eventos extremos que já estão ocorrendo e indicam futuros riscos, mas também apresentam sugestões para a adaptação dos países ao novo cenário mundial e oferecem alternativas para o apaziguamento da crise climática. Essas avaliações desempenham um importante papel de esclarecimento da visão da comunidade científica sobre o aquecimento global para que negociações internacionais definam acordos para a mitigação dessa problemática. O documento mais recente produzido por esse instituto foi divulgado no dia nove de agosto, sendo assinado por 234 autores de 65 países.

Nesse sentido, ao longo dessa matéria será analisada a cobertura jornalística do último relatório do IPCC realizada por alguns dos meios de comunicação online mais influentes do Brasil: a Folha de São Paulo, a BBC Brasil, o portal de notícias G1 e o Estadão. A observação do ângulo escolhido por cada uma das matérias examinadas busca revelar como as mesmas informações podem ser veiculadas de maneiras diferentes.


Principais conclusões do relatório do IPCC

O documento aponta que as emissões de gases do efeito estufa pelas atividades humanas são responsáveis por um aquecimento de, aproximadamente, 1.1°C no período entre 1850 e 1900. Além disso, indica que nos próximos 20 anos a temperatura global deve aumentar cerca de 1.5°C, sendo o ano de 2040 o momento previsto para o alcance desse marco climático. O documento ainda afirma que ultrapassar esse limite não seria imediato nem automaticamente catastrófico, porém seria mais seguro permanecer abaixo dele.

Mudanças sem precedentes já podem ser observadas hoje e algumas delas são irreversíveis nas próximas centenas ou milhares de anos, como o aumento contínuo do nível das águas dos oceanos, o derretimento das placas de gelo e mudanças no oceano. A acidificação das águas, a elevação da temperatura, a perda de oxigênio e a perda de biodiversidade são definidas no relatório como problemas iminentes que afetarão permanentemente os ecossistemas marinhos.

Os eventos extremos que ocorreram no passado apenas uma vez por século estão previstos para ocorrerem com mais frequência e maior intensidade no futuro. O aumento da incidência de tempestades, enchentes, furacões, ciclones, secas prolongadas e ondas de calor são previstos pela ciência climática como eventos que ameaçarão a sobrevivência dos seres humanos na Terra.




Folha de São Paulo aproxima essas revelações à realidade brasileira

A matéria produzida pela Folha prevê a elevação do volume de precipitação anual no Centro-Sul do Brasil por conta da ocorrência de chuvas fortes com grandes volumes de água e de duração de até cinco dias. Entretanto, o aumento de secas prolongadas nas regiões Norte e Nordeste também deve ser considerado alarmante devido aos potenciais impactos para os ecossistemas. Incêndios e perdas agrícolas sem precedentes tendem a ocorrer com maior frequência devido a aridez prevista para esses locais.

Além disso, são destacados os riscos de deterioração da biodiversidade da Amazônia devido ao aumento do número de dias por ano com temperaturas acima de 35°C e à redução da umidade na região decorrente de padrões de chuva mais irregulares. Essas mudanças drásticas sofridas pelo bioma amazônico, possivelmente, afetarão os padrões climáticos de todo o Brasil, trazendo consequências para a saúde da população e prejuízos para a vocação agrícola do país.


(Foto da seca vivenciada no Ceará)


G1 expõe a repercussão da divulgação desse relatório

O portal de notícias G1 reúne depoimentos de ativistas, cientistas e líderes globais acerca das informações apresentadas pelo relatório do IPCC. A fala de Greta Thunberg introduz a matéria ao expressar sua esperança para que o documento funcione como um alerta para o fato que a crise climática não está passando. Ela também afirma que é necessária uma intensa pressão midiática para que aqueles que estão no poder ajam. “O que as pessoas estão esperando para agir?”.

António Guterres, secretário-geral da ONU, também diz que o relatório é um código vermelho para a humanidade e que ele precisa ser entendido como “uma sentença de morte para carvão mineral e combustíveis fósseis antes que eles destruam nosso planeta”. O primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, concorda com a necessidade de abandonar o uso do carvão mineral e de realizar a transição para o uso de fontes limpas de energia para a proteção da natureza.

No entanto, Paulo Artaxo (um dos autores do IPCC e cientista da USP) apresenta uma visão mais pessimista sobre o futuro da crise climática ao afirmar que nós danificamos os biomas terrestres de modo que as próximas gerações sofrerão com dificuldades socioeconômicas bem piores que as experienciadas por nós hoje. Ele também também dá sua opinião pessoal ao dizer que será impossível limitar a elevação da temperatura global a 1,5 ºC.


BBC destaca a responsabilidade humana sobre a crise climática

A matéria produzida pela BBC destaca a responsabilidade dos seres humanos diante da crise climática. Nós não só somos culpados pela elevação da temperatura global devido ao uso expressivo e contínuo dos combustíveis fósseis, como também devemos ser aqueles que tomam a ação para a mitigação dos efeitos do aquecimento global.

A reportagem sugere que a divulgação desse relatório apenas alguns meses antes da conferência climática COP26, que será realizada em Glasgow entre os meses de outubro e novembro de 2021, teria sido uma estratégia para que ele se torne o alicerce principal das negociações,, assim como aconteceu com o lançamento do último documento em 2014 e o Acordo Climático de Paris em 2015.

O artigo da BBC também prevê a procura pela justiça de ativistas que lutam para a preservação do meio ambiente caso os líderes mundiais não atuem rápido o suficiente após as negociações da COP26. "Não vamos permitir que este relatório seja arquivado por mais inação. Em vez disso, vamos levá-lo aos tribunais", disse Kaisa Kosonen, assessora política sênior do Greenpeace. Ela reitera que o atraso para o apaziguamento da crise climática é responsabilidade de chefes de Estados e empresas que não se comprometem com a agenda ambientalista, garantindo que essas questões serão resolvidas nos tribunais caso essa inércia se perpetue. “Basta olhar para a recente vitória judicial conseguida pelas ONGs contra a Shell para perceber o quão poderosa a ciência do IPCC pode ser", completa Kosonen ao final da reportagem.


(Foto de uma indústria lançando poluentes na atmosfera)


Estadão reflete sobre a quem o relatório é destinado

O portal de notícias do jornal O Estado de São Paulo sugere a adoção de um modelo de desenvolvimento de baixo carbono pelo governo brasileiro. Além disso, recomenda a criação de políticas de redução do desmatamento, a transição energética para fontes limpas, implementação de técnicas agropecuárias mais sustentáveis e adequação da economia do país às transformações que a "Indústria 4.0” poderia trazer para o país, incluindo benefícios para a preservação do meio ambiente.

No entanto, a autora desse artigo de opinião para o Estadão, Suzana Kahn, reconhece que esse relatório não se destina ao atual governo, uma vez que diversas ações de representantes do poder comprovaram seu alinhamento com valores defendidos por produtores do agronegócio em detrimento da conservação dos biomas brasileiros. Apesar disso, ela afirma que tem esperança que esse relatório alcance e mobilize outros setores da sociedade brasileira, como a iniciativa privada, parlamentares e o terceiro setor da economia.

Portanto, fica evidente que cada meio de comunicação analisado possui uma maneira singular de apresentar e organizar as informações, dando o enfoque para o que consideram mais importante. Nesse sentido, a pluralidade da mídia brasileira deve ser respeitada e valorizada pelo público para que assuntos tão relevantes como esse possam ser discutidos de modo mais completo por meio do detalhamento de suas múltiplas vertentes.




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