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O poder que cala: como a Coreia do Norte censura jornalistas no século XXI

Atualizado: 9 de out. de 2020

Anne Poly


A imprensa, especificamente em solo norte-coreano, tem restrições que seriam inimagináveis em países como o Brasil. Por isso, jornalistas e estudantes que desejam se aprofundar no campo da falta de liberdade de imprensa em governos ditatoriais têm como leitura obrigatória a matéria A missão impossível de informar na Coreia do Norte feita por Macarena Vidal Liy para o jornal El País. A importância da reportagem está na riqueza de detalhes sobre a dificuldade de informar em ambientes autoritários, de certa forma preparando aqueles que desejam cobrir assuntos em ambientes como a Coreia do Norte.


Macarena é repórter de origem espanhola e correspondente da China no El País Espanha. Inicialmente, ela aponta que somente 130 jornalistas foram escolhidos pelo governo norte-coreano para a cobertura do congresso do Partido dos Trabalhadores, celebrado pela última vez há três décadas. Nenhum outro jornalista poderia cobrir o evento, já que Kim Jong-un controla totalmente quem vai participar e o que vai ser escrito. Ele não quer que sua imagem seja manchada fora ou dentro do território que governa com mãos de ferro.


As informações obtidas foram analisadas por especialistas norte-coreanos antes das divulgações, e os profissionais precisavam agir de maneira mais respeitosa e isenta possível. Esse fator prejudicou Rupert Wingfield-Hayes, correspondente da BBC. O jornalista, um dos selecionados pelo governo, foi preso e deportado após três dias de detenção. Ele também foi mantido incomunicável em um interrogatório que durou cerca de 10 horas, conforme seus relatos. O motivo foi ter expressado opiniões e questionamentos que se opuseram ao governo ditatorial. Por isso, o britânico nunca mais poderá retornar à Coreia do Norte.

(Rupert sendo cercado por jornalistas ao chegar no aeroporto de Pequim, na China, após ser expulso da Coreia do Norte/ Imagem: BBC)


A alegação de que Rupert teria distorcido os fatos expõe a grave realidade do país: a falta de liberdade de expressão. A imprensa não tem o direito básico de apresentar notícias minimamente polêmicas, pois isso seria perigoso demais para uma força ditatorial. O objetivo de Kim Jong-un é a limitação do pensamento crítico do povo a qualquer custo. Um exemplo disso é o panorama midiático do país, que dispõe de apenas quatro canais de televisão (todos estatais) e proíbe o acesso a redes sociais como Twitter, Instagram e Facebook.


Outro ponto da reportagem de Liy é a proibição do acesso dos profissionais ao congresso. Embora eles tivessem sido chamados justamente para esse acontecimento, os jornalistas tinham cada um de seus movimentos vigiados pelos guias de turismo. Isso era mais uma forma de reprimir e mostrar que posicionamentos que se opõem à ditadura norte-coreana e às restrições do país é fortemente censurado.


Além disso, uma distância de 200 metros separava os repórteres das informações. Poucos deles puderam ter acesso às autoridades, e quando tinham era sempre de maneira cautelosa e delicada. As visitas eram coordenadas pelos guias, que os levavam a lugares precisamente calculados. Os depoimentos coletados incluíam cidadãos elogiando o governo e os benefícios” provindos dele. Usada como vitrine do país e repleta de imagens de Kim Jong Un, a Fábrica de Seda Kim Yong-suk tinha áreas recreativas, creche, biblioteca e computadores conectados à intranet nacional, que restringe a quantidade de notícias sobre o mundo externo.


A missão impossível de informar na Coreia do Norte aborda uma realidade pouco discutida no jornalismo, fator que chama atenção para os inúmeros desafios enfrentados por jornalistas que têm como vocação trazer a informação que deveria ser direito do povo. Ao ler esse texto, você vai se sentir na pele dos repórteres vigiados por guias, e se assustar ao imaginar os momentos traumatizantes vividos por Rupert enquanto era interrogado. Embora seja, em parte, uma leitura complexa, vale a pena ler cada trecho dela.


Link da matéria: https://brasil.elpais.com/brasil/2016/05/09/internacional/1462773184_058360.html


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