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O caso Robinho tem relação com a cultura do estupro?

O jogador Robinho é condenado por violência sexual contra uma jovem na Itália. A reportagem do UOL explora a repercussão nas redes sociais, machismo, leis e muito mais sobre o caso.

Larissa Nascimento


Não é de hoje que, o assunto "estupro", comove socialmente os brasileiros, isso porquê o país carrega um fardo histórico sobre a problemática, uma vez que eram diários os abusos sexuais cometidos por homens brancos e sofridos por mulheres escravizadas: indígenas e negras. Mesmo após séculos desde os primeiros casos no Brasil, o tema ainda é realidade. Na reportagem O que tem de cultura do estupro nas mensagens de Robinho e amigos?, escrita por Nathália Geraldo para o UOL, podemos avaliar o desfecho dos áudios de uma conversa entre o jogador Robinho e alguns amigos revelando detalhes do crime. A matéria tem início com a jornalista detalhando o que levou uma jovem albanesa a acusá-los por violência sexual numa boate chamada Sio Café, em Milão, na Itália. Em seguida, a redatora conta com a análise da promotora de Justiça Celeste Leite dos Santos, que afirma que "corroboram a palavra da vítima de que ela foi abusada sexualmente mais de uma vez e por mais de uma pessoa".

A linguagem utilizada pela colunista não apresenta muitos termos técnicos, facilitando o entendimento do público. O mais interessante é a fluidez com que ela retrata a temática, lembrando sempre, é claro, da seriedade que o caso exige. Nathália conduz o texto de forma que as opiniões dos especialistas que atuam contra a violência da mulher e crimes sexuais são argumentos de autoridade, escrevendo, assim, com precisão sobre o caso. Desse modo, participam da matéria: uma produtora de justiça e mais duas advogadas. Todas as entrevistadas associam as declarações dos acusados à cultura do estupro, que, como avaliado por elas, torna mulheres vítimas de crimes sexuais frequentemente.

Em outro ponto, são citadas na narrativa, as transcrições publicadas - com exclusividade - por Lucas Ferraz na manhã de sexta-feira (16) para o globoesporte.globo.com, as quais revelam que Robinho demonstrou saber que a vítima estava alcoolizada no momento do ato e, mesmo assim, ele decidiu continuar. A repórter segue revelando o quanto as declarações tiveram repercussão nas redes sociais, principalmente, entre os torcedores do Santos Futebol Clube - time que contratou o jogador recentemente e que, após as declarações virem a público, optou pela rescisão de contrato com o atleta.

A partir daí, Nathália Geraldo passa a reproduzir fielmente as transcrições que fazem parte da sentença do caso. "Estou rindo porque não estou nem aí, a mulher estava completamente bêbada, não sabe nem o que aconteceu", disse o jogador, em ligação com o músico que tocou na noite do ocorrido na boate, Jairo Chagas. A conduta do texto é de suma importância, pois ao mesmo tempo em que preza pela informação de forma precisa, consegue respeitar o leitor, especialmente, se esse for uma mulher, que consegue perceber a cautela na linguagem utilizada e, de certa forma, se sente representada pelas falas da jornalista.

Posteriormente, a redatora, em conjunto com a advogada criminalista e especialista em violência contra a mulher Adriana D'Urso, têm a preocupação em mencionar o artigo 217 A do Código Penal brasileiro, o qual afirma que transar com uma pessoa bêbada não é só desrespeito, mas sim, estupro de vulnerável. Já para a justiça italiana, segundo o que foi exposto pelo globoesporte.com, é crime aliciar uma pessoa a ter ou a sofrer atos sexuais sem que ela tenha total discernimento do que está acontecendo.

Mesmo quando a escritora tenta ser o mais sutil possível no vocabulário, é quase impossível não expressar o sentimento de nojo ao ler as transcrições das ligações entre o jogador e os seus amigos, uma vez que o modo que os acusados se referem a vítima é sempre como objeto sexual. Em outro trecho da conversa entre o músico e Robinho, o atleta afirma: "Olha, os caras estão na merda... Ainda bem que existe Deus, porque eu nem toquei aquela garota. Vi (NOME DE AMIGO 2), e os outros foderam ela, eles vão ter problemas, não eu... Lembro que os caras que pegaram ela foram (NOME DE AMIGO 1) e (NOME DE AMIGO 2).... Eram cinco em cima dela".

Mais do que falar sobre o tema, a matéria é interessante para explicar, de forma clara, situações de abusos sexuais para que todas as mulheres tenham informações suficientes e possam discernir atos que passaram e passam dos limites e, desse modo, consigam buscar ajuda. A redatora conseguiu transmitir ao leitor um conjunto de sentimentos: raiva, ódio, impunidade, mas, especialmente, justiça. Por fim, a presença de especialistas foi perspicaz, pois traz ao público segurança durante a leitura. Isso é nítido quando são citadas leis brasileiras referentes ao caso e, principalmente, quando as profissionais ouvidas pela jornalista afirmam que o caso está diretamente ligado à cultura do estupro, uma vez que homens justificam os seus comportamentos abusivos, sobretudo, acreditando que as mulheres devem estar à disposição para satisfazer os desejos sexuais deles.


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