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O agro é fome

Júlia Motta


Como explicar para mais de 19 milhões de pessoas que passam fome hoje no Brasil que o nosso país é o segundo maior exportador de alimentos no mundo?



Quando paramos para analisar os dados, é evidente que a fome no mundo não é um problema de produção de alimentos, mas sim de interesses econômicos e políticos. No Brasil, isso fica ainda mais explícito quando comparamos o número de pessoas em situação de insegurança alimentar e o lucro do agronegócio: ambos crescem em proporção direta. A reportagem Os contrastes entre o lucro do agronegócio e o aumento da fome no Brasil (projetocolabora.com.br) vem mostrar este cenário cruel em nosso país.

Os problemas de insegurança alimentar e fome no Brasil não são recentes. Infelizmente, há décadas os brasileiros vêm sofrendo com a dúvida se conseguirão colocar pelo menos um prato de comida na mesa durante o dia. Durante a pandemia, essa incerteza atingiu ainda mais pessoas, alcançando o alarmante número de 116 milhões de brasileiros tendo que se desdobrar e conseguir renda suficiente para a alimentação, como foi o caso de Ariana Rufo Rodrigues, de 37 anos, entrevistada para a reportagem do Colabora.

Ariana, manicure por profissão, precisou começar a vender balas em uma feira livre de São Paulo para complementar a renda quando se viu em situação de insegurança alimentar. Apesar de receber o auxílio do Bolsa Família, ela não consegue garantir uma alimentação digna, pois durante a pandemia o preço de quase tudo subiu e assim não é possível fechar a conta no azul no fim do mês. E ela não está sozinha. Em 2020, O Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar e Covid-19 no Brasil contabilizou 116.842.556 pessoas lidando com a insegurança alimentar.


“ O governo precisa favorecer a população, só que eles ajudam de um lado e atrapalham do outro. O auxílio ajuda as pessoas, mas o gás é R$100,00, entendeu?”

Ariana Rufo Rodrigues


É evidente que o problema da fome não é só uma questão de auxílio financeiro, mas de adoção de políticas públicas capazes de construir uma realidade favorável e digna de acesso aos alimentos. Segundo Maitê Gauto, socióloga e presidente de programas da Oxfam Brasil, que foi entrevistada para a matéria, é preciso ir além das medidas de auxílio, é preciso políticas de transferência de renda, de geração de empregos e de apoio às pequenas e médias empresas.

Mas, no Brasil, o único interesse é fomentar o agronegócio, que não é pop, não é tech, não é tudo. O agro é fome. Segundo o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, o Valor de Produção do agronegócio pode atingir 1,109 trilhão este ano, batendo recordes. Mas como que por um lado a produção de alimentos cresce tanto e por outro os alimentos na mesa dos brasileiros desaparecem cada vez mais? Isso acontece porque o agronegócio é responsável por uma pequena parcela da alimentação da população brasileira, sendo seu foco a exportação de alimentos. Esse sistema considera o alimento como uma mercadoria e quem realmente coloca comida no prato é a agricultura familiar, que sofre para se manter sem auxílio e com constantes ataques.

Diante desse cenário, Maitê traz algumas das soluções, sendo a principal a taxação de lucros. É preciso taxar as grandes fortunas para finalmente começar a sair dessa situação que assombra milhares de brasileiros e que, infelizmente, tende a piorar, como mostram os dados do relatório Focus, do Banco Central, que prevê uma menor expansão na economia brasileira e o aumento do preço dos produtos. Em contraste, o lucro do agronegócio continua subindo com o país exportando comida. E assim, a pergunta que fica é: Como explicar para mais de 19 milhões de pessoas que passam fome hoje no Brasil que o nosso país é o segundo maior exportador de alimentos no mundo?

Essa reportagem do Projeto Colabora nos faz problematizar a situação da fome no Brasil. Ela vem nos tirar do pensamento comum de que é um problema de produção ou qualquer outro que faz com que realmente seja uma dificuldade alimentar toda a população. Nos faz ver que a fome é um projeto político.


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