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“Nos Bastidores da Notícia”: a interseção entre o amor pelo jornalismo e a paixão jovem

Eduarda Goulart



( Fonte: IMDb)


O filme Nos Bastidores da Notícia retrata, pelas lentes do drama, da comédia e do romance, o cotidiano de jornalistas que trabalham em uma prestigiosa redação de telejornal em Washington, DC. A trama, escrita e dirigida por James L. Brooks é composta por um elenco estelar e explora o desenvolvimento de um triângulo amoroso e a forma como essas interações são estabelecidas no dia a dia corrido dos profissionais. Através de uma escrita fluída e de decisões criativas precisas, o longa de 1987 explora as diferentes relações dos personagens com o jornalismo, o quão prejudicial o elemento do sensacionalismo pode ser nesse meio e o limite entre a devoção ao fazer jornalístico e a importância de se dedicar a sua vida pessoal.

Jane Craig, interpretada por Holly Hunter, é uma produtora muito respeitada por seus colegas de trabalho e pela indústria em que atua por ter uma entrega inspiradora para com o jornalismo e por acreditar que o telejornal tem um dever a cumprir com o espectador. Suas convicções de que a profissão vai muito além de cumprir um papel de entretenimento explicam seu sucesso eminente e sua conexão especial com Aaron Altman (Albert Brooks), um repórter dedicado e detentor de muito conhecimento, mas que não é tão respeitado pelos chefes da redação a que está vinculado. Com aspirações que se estendem a ocupar o lugar de âncora da emissora, alavancar sua carreira e manter em segredo sua queda por Jane, ele se encontra perdido no ponto de partida do filme. É possível enxergar como essas duas perspectivas fundamentam um vínculo sustentado pela cumplicidade e admiração entre os dois, o que tornava a dinâmica perfeita até o encontro com o obstáculo inicial dessa relação: a chegada de Tom Grunick (William Hurt) na emissora.

Os primeiros minutos do filme pintam muito bem como um ambiente de redação funcionava nos anos 80 nos Estados Unidos – no contexto do desenvolvimento da mass media - , retratando a necessidade de se estar sempre com pressa e a importância de se ter as características que compunham a figura do “jornalista completo”. A chegada de um âncora de TV sem nenhuma bagagem cultural ou relação pessoal com a arte da comunicação, em oposição aos personagens que aparecem no início, consegue deixar a história ainda mais interessante.

Tom Grunick representa a posição de puro privilégio no meio jornalístico – dentro de uma obra que já segue um viés bem excludente. Ele conta com a ajuda de seus novos colegas para reconstruir os anos perdidos de experiência e remodelar a sua carreira. Como peça complementar para a história, Tom se apaixona por Jane e por tudo que ela representa pessoal e profissionalmente e Jane, que se depara com um conflito entre seus desejos e seus princípios, se sente atraída por ele.



(Fonte: Reprodução/vídeo)


A escolha de compor os três vértices desse triângulo com personagens tão complexos e bem estruturados permite que a história consiga ser flexível o bastante para se transportar entre os dois pilares que constituem a temática do filme: o amor jovem e o exercício do jornalismo. Ao mesmo tempo que o longa flerta com os momentos clichês típicos de uma comédia romântica, ele consegue debater sobre assuntos pertinentes que se estendem desde as mazelas das notícias sensacionalistas até a maneira questionável de como funcionam os bastidores dessas redações.

Nos bastidores da Notícia apresenta os elementos necessários para construção de personagens e seus sentimentos e ideais - que vão além desse trio tão proeminente, contando com performances de renomados atores como Joan Cusack e Jack Nicholson. O filme trabalha, também, com cenas em que esses indivíduos estão atuando onde eles mais se destacam: a realização de pesquisas jornalísticas, de entrevistas, a formatação de reportagens e a narração e transmissão das notícias.

Apesar de um final mais fraco e uma conclusão da história pouco original, Nos Bastidores da Notícia não deixa de cumprir um papel eficaz em retratar a vida do jornalista da década de 80. A relação da sociedade com os meios de comunicação hoje em dia faz com que as semelhanças entre as realidades do filme e a atual sejam menos acentuadas, mas essas diferenças não impedem que o longa consiga criar uma conexão com o espectador. Ele coloca em destaque o cotidiano típico de um jornalista e a influência dessa rotina complexa nas relações entre os personagens. Para quem já segue a profissão ou está entrando nesse mundo agora, o filme consegue restaurar aquela paixão inicial pelo o ato de informar que cultivamos dentro da gente.





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