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Naomi Osaka: uma estrela em desconstrução

Após se recusar a conceder entrevistas coletivas, saída polêmica da tenista do torneio de Roland Garros estimula o debate sobre a saúde mental entre os atletas


Suelen Oliveira

(Naomi Osaka - Foto: Reprodução/Site Oficial)


Naomi Osaka, 24 anos, é uma tenista japonesa que atualmente ocupa a 12ª posição no ranking da WTA (Women's Tennis Association). Osaka fez história ao ser a responsável por acender a pira olímpica em Tóquio, decretando a abertura dos Jogos Olímpicos em seu país natal. Ela se tornou um fenômeno, principalmente, depois de conquistar seu primeiro título de Grand Slam ao derrotar Serena Williams na final do US Open de 2018. Desde então, ela acumula 4 campanhas vitoriosas em Grand Slam – torneio mais prestigiado do tênis – sendo campeã novamente em 2020 no US Open e levando o bicampeonato no Aberto da Austrália em 2019 e 2021.


(Naomi Osaka acende a pira das Olimpíadas de Tóquio — Foto: Maddie Meyer/Getty Images)


De acordo com a revista Forbes, Naomi foi a atleta feminina mais bem paga da história ao arrecadar US$ 60 milhões, ao passo em que também foi reconhecida pelo Prêmio Laureus, o Oscar do esporte, como a atleta do ano de 2020. No mais, a conceituada revista Time a elegeu como uma das 100 pessoas mais influentes do mundo na edição de 2021. Todo esse sucesso é reflexo de um talento que amadureceu muito rapidamente, além de chamar a atenção de patrocinadores que querem vincular suas marcas a um rosto que se tornou símbolo de excelência.


Paralelamente a isso, Osaka tem se destacado bastante fora das quadras por seu ativismo e defesa de causas sociais, em especial ao movimento Black Lives Matter. Com efeito, se tornou comum a jovem adotar uma postura de denúncia à violência policial despendida contra a população negra dos Estados Unidos. A esse respeito, a tenista usou a campanha do US Open de 2020, disputado em New York, para usar máscaras com os nomes de 7 vítimas fatais do racismo. Além disso, recentemente ela fez uma doação para ajudar as vítimas do terremoto no Haiti, mas sua grande colaboração tem sido em função de estimular a discussão sobre a importância da saúde mental.


(Osaka e as sete máscaras usadas no US Open — Foto: Reprodução/Twitter)


Entretanto, não é apenas de glórias que a vida de Osaka se resume ultimamente. Em maio deste ano, a japonesa decidiu abandonar o torneio de Roland Garros - um dos 4 maiores eventos de tênis do circuito - após decidir que não daria entrevistas coletivas depois das partidas. A repreensão por faltar à coletiva de imprensa rendeu à jogadora um prejuízo de 15 mil dólares. Faz-se importante ressaltar que todos os atletas se comprometem contratualmente a falarem com a imprensa depois dos jogos. Logo, a decisão da jogadora foi recebida com espanto por torcedores e, sobretudo, pela mídia. Naturalmente, esse posicionamento gerou uma enorme polêmica, pois muitos creditaram ao estrelismo e à busca por um tratamento diferenciado o fato de ela se recusar a dar entrevistas.


Nesse contexto, a própria tenista usou suas plataformas digitais para se justificar, alegando estar sofrendo de um quadro de depressão e que sente crises de ansiedade antes de falar com a imprensa.


“Embora a imprensa especializada em tênis tenha sempre sido carinhosa comigo (e eu quero me desculpar sobretudo com os jornalistas legais que eu possa ter magoado), eu não sou uma oradora natural e tenho enormes crises de ansiedade antes de falar com a imprensa. Eu fico realmente nervosa e acho realmente estressante me conectar e dar as melhores respostas que gostaria”, disse a atleta em seu perfil no Instagram.

Após essa desistência, a japonesa voltou a participar de uma coletiva de imprensa alguns meses depois e se emocionou ao abordar sua relação com a mídia: “Eu diria que participar da coletiva de imprensa é o que eu acho mais difícil para mim. Eu não posso falar em nome de todos os jogadores, só posso falar por mim. Mas, desde que eu era mais jovem, houve muito interesse da mídia por mim”, explicou.


Obviamente, o esporte de alto nível exige bastante comprometimento na prática da atividade e também com os compromissos firmados com a organização do evento, com os veículos de comunicação e, finalmente, com os fãs. Uma entrevista pode significar muitas coisas, dentre elas, a oportunidade de se expressar e de criar engajamento com os torcedores no melhor dos cenários. Já no pior – e que ocorre com maior frequência – é ter que passar por um escrutínio da própria performance publicamente. As perguntas, em geral, são sobre sua atuação e quando você sai derrotado de quadra depois de ter dado o seu máximo pode ser assustador ter que fazer um levantamento de todos os seus erros e falhas frente ao mundo todo. Se torna, portanto, um gatilho sobre suas vulnerabilidades.


(Naomi Osaka - Foto: Reprodução/Site Oficial)


Para tratar sobre o tema com maior profundidade, o Pitacos! teve a oportunidade de entrevistar com exclusividade o jornalista e narrador esportivo Eusébio Resende, atualmente integrante do canal por assinatura SporTV. Ele também comanda o podcast semanal Match Point que discute sobre todas as novidades do universo do tênis. Eusébio possui vasta experiência na área e é reconhecido como a voz do tênis do Brasil.


• Naomi Osaka atingiu um nível de excelência muito precocemente, afinal aos 24 anos ela já conquistou 4 títulos de Grand Slam, além de ser a primeira tenista de origem asiática a ocupar o número 1 no ranking feminino. Isso nos faz pensar em como os atletas de alta performance treinaram a vida toda para desempenharem no mais alto nível. Mas ao mesmo tempo, cada pessoa tem a sua personalidade, a sua maneira de ver o mundo e não necessariamente estão confortáveis em lidar com os efeitos do sucesso, como a atenção da mídia e a exposição nas redes sociais. Considerando isso, você acha que a Osaka, por mais talentosa e preparada tecnicamente que esteja, consegue neutralizar esses problemas quando entra em quadra ou isso está de alguma maneira afetando o desempenho dela?


Eusébio Resende: “A partir do momento em que a Naomi Osaka passa a ser uma atleta vencedora, aí é que ela descobre o problema que ela realmente tem. Quem sofre de ansiedade, quem sofre de depressão às vezes não identifica o problema porque o mundo em que ela vive, o ambiente em que ela vive não tem tanta cobrança, não tem tanta exigência. Quando você atinge um nível de excelência, essas questões internas podem gritar e elas podem surgir, elas vêm de dentro para fora e de fora para dentro dependendo do ambiente em que a pessoa vive. E foi isso que aconteceu. Ela percebeu que sua importância para o mundo estava muito grande. Ela assumiu compromissos comerciais e esportivos e, de repente, o psicológico não suportou uma cobrança tamanha e aí travou. Quando trava o psicológico, trava o corpo e aí ela se viu numa encruzilhada. E como ela tem condição de ficar sem trabalhar durante um bom tempo, até pelo resto da vida, ela resolveu na hora certa parar para tratar esse problema.”

• Recentemente, Osaka teve uma das maiores honras ao acender a pira Olímpica em Tóquio, que foi palco também da desistência da Simone Biles de competir em algumas provas, alegando não estar mentalmente bem. No caso da Biles, ela recebeu muito apoio com a sua decisão, mas a Osaka foi mais criticada, talvez pelo modo como ela conduziu a sua saída de Roland Garros após se negar a dar as entrevistas. De qualquer maneira, são dois casos emblemáticos por envolverem duas das grandes atletas da atualidade falando sobre a importância da saúde mental na composição do ser humano. Nesse sentido, você considera que a mídia especializada está tratando esse tema da maneira apropriada, buscando realmente quebrar os paradigmas na intenção de tratar isso de maneira séria e elevando a saúde mental a um nível tão importante quanto a preparação física dos atletas?

Eusébio Resende: “Mídia especializada é especializada em esporte. No caso da Naomi Osaka, é especializada em cobertura de torneios de tênis. Nem sempre ou em 99,9% dos casos as pessoas que cobrem esse tipo de evento estão preparadas para analisar uma questão mental. A questão mental e psicológica tem que ser analisada por um profissional da área e às vezes as pessoas atropelam as questões, atropelam as perguntas e cobram demais do atleta.”

• Osaka tem se destacado muito fora das quadras pelo seu ativismo e pelos seus posicionamentos a favor de causas que são muito preciosas para ela. Naomi pode ser colocada ao lado do Lewis Hamilton e do LeBron James como atletas que descobriram o poder de suas vozes e estão usando suas plataformas para trazerem mudanças positivas para o mundo. Isso é um movimento relativamente novo, com os atletas buscando se envolverem mais com causas sociais e que tem gerado muitos debates. Relacionando isso com o jornalismo, você acha que isso acaba trazendo mais pressão para esses atletas e no caso específico da Osaka, por ela carregar tanta representatividade sendo mulher, negra e asiática a cobertura jornalística tem sido justa com ela?

Eusébio Resende: “Não, a cobertura jornalística nesse caso não tem sido justa com ela. As pessoas a massacraram depois da decisão em Roland Garros de resolver não dar entrevista rasgando um contrato que estava assinado. Inclusive eu fui muito crítico no podcast que eu gravo (Match Point), eu a critiquei severamente pelo fato de não ter cumprido algo que ela tinha assinado. Só que depois eu me retratei porque eu não sabia o problema que ela estava enfrentando. Só fui tomar conhecimento após a minha afirmação. Quando não acontece com você, é muito simples você dizer que a pessoa não está cumprindo aquilo que ela se propôs a cumprir, que ela assinou para cumprir. Mas quando você descobre que o problema realmente é muito grave, aí você passa a entender o que está acontecendo. A mídia não tem sido justa com ela, não. Nessa questão do ativismo, é muito positivo para atletas como ela, como o Lewis Hamilton. E lá no passado, quando ainda não existiam as redes sociais, havia o próprio Muhammad Ali, Arthur Ashe, Althea Gibson, a Billie Jean King, que é uma branca extremamente ativista na questão da igualdade de gêneros. Isso é positivo, mas como ela (Osaka) está vivendo esse problema, essa relação de repente possa ter criado também uma outra pressão vinda de outro lado.”

• E para finalizar, não podemos esquecer que os efeitos da pandemia atingem nós todos como humanidade. Osaka já expôs os seus problemas com depressão, especialmente depois daquele jogo polêmico com a Serena Williams em 2018 (a norte-americana foi acusada de receber instruções do seu treinador durante a partida, o que é contra as regras do tênis) e ela também sofre de ansiedade antes de falar nas coletivas de imprensa. Provavelmente, essa situação de isolamento e muitas restrições prejudicou ainda mais a recuperação dela. Em um artigo publicado pela revista Time em julho, ela pediu privacidade e empatia por parte da imprensa. Como profissional da comunicação, como você trabalha para equilibrar os fundamentos de informar e ao mesmo tempo respeitar certos limites como esses que foram solicitados pela Osaka?

Eusébio Resende: “Respeito é a base de equilibrar esses fatores. A gente tem que trabalhar no limite da informação e saber qual é a fronteira do jornalismo e do pessoal. A informação está acima de tudo para nós, mas tem o limite do respeito com relação ao ser humano. Isso com 25 anos de experiência como narrador eu já consegui entender como funciona. Infelizmente, com o fenômeno das mídias sociais, os novos profissionais às vezes extrapolam no direito de deixarem de serem profissionais para serem seres humanos, que tem todos os seus defeitos assim como eu, assim como você. E aí as pessoas acabam exagerando nas críticas e exagerando também na invasão da vida alheia. Isso é um fenômeno que dificilmente vai ser resolvido agora. Quem sabe a longo prazo o ser humano aprenda a estabelecer os limites entre o lado profissional e o lado pessoal que possa envolver a vida de outra pessoa.”


(Naomi Osaka - Foto: Reprodução/Site Oficial)


O tênis é um esporte em que o cronômetro não atua, a única coisa que interessa é marcar o último ponto. Justamente por isso, ele é muito mental e também solitário, pois se trata de um esporte individual. Não existe uma equipe com quem se possa dividir as responsabilidades. A exigência por jogar bem e vencer é tamanha que sua identidade se reduz ao seu último resultado. Acrescente-se a isso a enorme atenção da mídia e a expectativa do público e já é suficiente para criar uma situação potencialmente limite. Mas não se engane pela personalidade doce e introvertida, Naomi Osaka é uma mulher autêntica e que está cada vez mais ciente da sua importância para o mundo.


Apesar de toda essa questão delicada, Osaka mostra-se corajosa o suficiente para transparecer seus problemas e estabelece um modo mais humanizado para enxergar os atletas profissionais. Seu posicionamento marca um passo importante na sua evolução pessoal, desconstruindo a imagem insustentável de que uma carreira bem-sucedida é sinônimo de uma vida perfeita. Mostrar-se vulnerável não representa fraqueza, mas sim um sinal de autoconhecimento sobre respeitar seus próprios limites. Depreende-se, portanto, que o sucesso no âmbito profissional não elimina o aspecto fundamental de todo ser humano: as emoções. Todos somos guiados pelas emoções e estamos constantemente aprendendo a como lidar com elas.


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