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“Muita Coisa”: A quarentena e a saúde mental

Como a pandemia de covid-19 afetou a mente das pessoas

Beatriz Costa



Foto: André Valentim, 2020


Segunda quinzena de Março, 2020. Diene Carvalho da Silva, mais conhecida como Preta, tinha acabado de entregar o imóvel onde morava quando a quarentena começou. Desabrigada e com medo de não sobreviver caso contraísse Covid-19, a fotógrafa pediu guarita para um conhecido. Foi um longo mês e meio vivendo numa quitinete sem janelas na Favela do Guarda, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Depois se mudou junto com sua boneca, que também se chama Preta, para os fundos de uma ONG, a Mulheres de Peito e Cor, que parou de funcionar por conta da pandemia.

Com internet ruim e sem televisão, Preta (a fotógrafa), foi obrigada a encarar uma solidão que ela não sentia desde seu surto de depressão, em 2016. Se viu desabafando com Preta (a boneca) várias vezes. Criou um vínculo e se sentia mais calma com a boneca por perto, chegando a dormir com ela e a acordar do meio da noite para checar se estava tudo bem.

Apesar dos momentos de solidão, Preta continuou acordando de cabeça erguida. Não se deixou abater nem pela falta de dinheiro. Em seu depoimento, justifica que mesmo sem uma poupança gorda, gastava apenas com o básico e isso ajudou muito. O autor, nesse momento, menciona a outra quarentena da vida de Preta, que não foi nada igual à causada pelo Covid-19.

A comparação entre as duas quarentenas da vida de Preta é sensacional, pois dá às pessoas que nunca sofreram com doenças mentais uma base. Quase todo mundo que está lendo a matéria da Piauí teve que se isolar em março, alguns continuam isolados, sem ver ninguém há meses. Essas pessoas sabem como a quarentena os afetou e, a partir desse momento, conseguem sentir uma ligação mais forte com a história que vai começar a ser desenvolvida.

Em 2016, Preta era uma pessoa um pouco diferente. Era gerente em uma farmácia em Copacabana, dona de uma loja virtual na qual revendia roupas femininas, casada e fazia faculdade. Apesar da vida corrida, se considerava uma pessoa feliz até a noite que sentiu uma tristeza repentina no meio da Avenida Presidente Vargas.

Preta descreveu o sentimento como agonia, aflição, um desejo contínuo de chorar. Se perguntou várias vezes onde estava o seu eu de sempre. Durante um ano e meio, não conseguiu responder a pergunta. Diene Carvalho perdeu 15kg, largou a faculdade, fechou a loja virtual e terminou o casamento. Se afastou de todo o convívio social, só sentia vontade de ficar em casa, deitada no escuro. Procurou ajuda e foi diagnosticada com síndrome do pânico e depressão. Tentou suicídio quatro vezes.

Quando finalmente conseguiu sair de seu isolamento, Preta quis compartilhar sua história e aprendizados com outras pessoas. Especialmente gente pobre, jovem e morador de comunidade. Foi assim que o Maktüb Experience, um projeto voluntário que leva oficinas de grafite, apresentações de rap e batalhas de MCs a algumas favelas do RJ, nasceu.

Começamos aqui uma intercalação que, em momentos, me deixou confusa. Armando Antenore, o autor da matéria, resolveu introduzir depoimentos dos pacientes do Cada Trauma Importa, um braço do Maktub focado em oferecer atendimento psicológico durante a quarentena, entre a história da fotógrafa. Mesmo bem sinalizados, cada um deles quebrou a fluidez do texto. Por serem grandes, quando voltava para a história de Preta, eu tinha que me ambientalizar de novo. Não me leve a mal, cada um desses depoimentos é incrível, dá uma profundidade para a iniciativa e o quanto ela está ajudando, mas eles parecem spin-offs da matéria.

O jornalista escolheu três personagens. “A filha de Oxum”, Ana Lúcia da Silva Macharethe, que perdeu o emprego durante a pandemia e estava enlouquecendo, em suas palavras, com o marido dentro de casa. “A mãe de Michel”, Lidiane Cristine dos Santos, que ficou separada do filho por um tempo no começo da pandemia e que tem medo todo dia que seu filho vire mais uma vítima de violência como João Pedro, menino de 14 anos que morreu dentro de casa após ser atingido por um tiro. Por último, “O Rapper”, Wendel Luiz Correia dos Santos de Jesus, pai solteiro que tem paixão pela leitura e pelo rap, mas que no momento é aguadeiro. Todas essas histórias têm algo em comum: são pessoas pobres que não podiam pagar um psicólogo, mas que graças ao Cada Trauma Importa, conseguiram ajuda de alguém em um momento complicado.

No começo do texto, a fotógrafa sugere que o seu surto surgiu subitamente. Lendo a matéria, vemos que sua suposição muda. De acordo com Preta, o acúmulo de problemas não resolvidos do passado resultou na crise que começou naquele dia na Presidente Vargas. A mulher sofria racismo até de parte da família quando era criança. Durante o período que lutou contra a depressão e síndrome do pânico, lembrava sempre de uma frase que um parente branco sempre falava ao seu pai.

“Aqui não tem pau para urubu sentar.” Quando Preta desvendou que essa frase era racista e que seu pai não era bem-vindo pela família da sua mãe, que era branca, a menina se sentiu rejeitada. “Sou tão negra quanto meu pai. Se o parente branco não gostava de ‘urubus’, então me rejeitava também.”

É importante mencionar como as pessoas sempre vêem a mulher preta como um símbolo de força. Como mencionado no texto, Preta sentia que não podia demonstrar fraquezas, não podia pedir colo quando estava mal. É a solidão da mulher preta. Você não pode ser fraca, pois a sociedade já está te atacando o tempo todo. Você cria uma personagem radiante, que nunca se abala e acredita tanto nela que no final não sabe mais quem é.

A matéria aborda também a primeira consulta de Preta com uma psicóloga e como não deu certo. Ela não se sentia acolhida e resolveu parar de ir na terceira consulta. No entanto, Preta não parou de procurar ajuda. Ela sabia do que precisava e que os medicamentos não fariam milagres se ela não lidasse com seus problemas. Quando finalmente encontrou uma psicóloga com quem se sentiu confortável, percebeu o quanto a pessoa preta se sente acolhida ao conversar com alguém que entende seus problemas mais profundos.

Com seu dialeto “Muita Coisa”, que segundo ela quer dizer que sente apreço por algo, a mulher discorre sobre como uma psicóloga negra fazia sentido para ela. Preta explica que não precisava explicar o que enfrentava por conta do racismo, a doutora entendia por ter experiências parecidas. A empatia da médica fez Preta se sentir validada, que seus problemas eram importantes também e precisavam ser cuidados.

É interessante ver ela falando sobre isso, porque muitas pessoas pretas têm a mesma opinião. Não é sobre achar que o terapeuta branco não vai ter empatia por você e seus problemas, mas que eles não vão te entender num nível atômico. Como Preta diz no texto, os psicólogos brancos vão avaliar de forma mais abstrata, pois nunca sofreram racismo.

Uma das maiores surpresas da fotógrafa foi achar alguém durante a sua fase mais complicada. “Seu Roberto”, o proprietário do imóvel para onde se mudou depois do divórcio, foi uma companhia excelente. Todas as tardes a mulher descia as escadas para conversar com o senhor aposentado. O homem até deixou que ela continuasse morando na casa quando não conseguiu pagar o aluguel. A moça só voltou a pagar quando conseguiu o auxílio-doença do INSS.

Seu Roberto foi seu “anjo da guarda” em uma das situações em que Diene tentou suicídio. Nas outras três, a mulher não sabe quem a socorreu. Preta diz que, de primeira, não sentia vontade de morrer, mas sim de chamar atenção das pessoas, pedir ajuda, mostrar que não estava bem. Nas outras três, a vontade era de sumir, não se sentir mais como “um barco desancorado”. Ojornalista aborda essa situação com delicadeza, o que é apreciado, já que é algo forte e muito difícil de falar.

Começamos então a conhecer a história dela já recuperada, quando decidiu abrir sua casa para estrangeiros. A fotógrafa diz que sentia vontade de conhecer pessoas novas, depois de seus tempos na pior. O “desfile de gringos” despertou o interesse de sua vizinhaça, já que não se espera ver tantos em um bairro da Zona Norte (mesmo que seja onde a Anitta nasceu). Preta discorre sobre como ela organizou reuniões com os estrangeiros que recebia em sua casa e a comunidade, o que acabou a inspirando para criar o Maktüb Experience.

Ao longo da matéria, Antenore apresenta também dados de um relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre o risco da pandemia afetar gravemente a saúde mental das pessoas. Há também pesquisas mais focadas no Brasil, do Ministério da Saúde e da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Todas elas são alarmantes e apontam uma piora gigantesca na saúde da população.

Preta menciona também seu atual terapeuta e mentor, Evandro Ouriques, que também é professor da UFRJ. Eles se conheceram em uma exposição de fotografia. Ouriques conta que quando conheceu Preta, sentiu que precisava dela em seu projeto de extensão, que seria realizado na faculdade e no Observatório de Favelas. O projeto ainda não começou por conta da quarentena. Enquanto isso, Evandro supervisiona o Cada Trauma Importa, atende Preta e alguns dos pacientes do projeto.

Em agosto, o mês anterior à publicação da matéria, Preta já não estava em isolamento total. Começou a retomar seu trabalho de produtora cultural, planejar ensaios e a entregar cestas básicas para as pessoas das comunidades onde o Maktüb está. É incrível como durante o texto dá pra ver como ela se importa com as pessoas. As palavras que Antenore usa mostram a necessidade que ela tem de fazer o mundo um lugar um pouco melhor.

Chegamos ao final do texto descobrindo que dos 11 psicólogos que Preta conseguiu achar para seu projeto, quatro sobraram. Ela admite que não sabe até quando vai continuar com ele. Por ela seria para sempre. Mas a realidade, como diz, é que não temos controle de tudo. E está tudo bem.

Mesmo sendo um texto longo, "Muita Coisa!" é um texto extremamente necessário. Talvez com pouca fluidez, mas que compensa com a história. Preta com sua boneca, os pacientes da ONG, tudo faz com que você volte para o texto, sinta fome de saber a imagem que o jornalista vai montar. Finalmente estamos começando a superar o tabu que a saúde mental sempre foi. Espero que continuemos evoluindo e que todo mundo perceba que cuidar da mente é tão importante quanto o corpo.


Você encontra a reportagem no site da revista piauí ou na edição 168 da revista



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