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Livro "Bicha! Homofobia estrutural no futebol" do jornalista João Abel

William Guido


João Abel é jornalista e colunista da editoria de esportes no jornal Estadão. Em outubro de 2020, lançou a segunda edição de "Bicha! Homofobia estrutural no futebol", um livro-reportagem que mostra o caótico ambiente desse esporte para atletas e torcedores da comunidade LGBTQIA+. Na obra, o jornalista também traz histórias e relatos de racismo e sexismo. Abel destaca que o intuito não é fazer um estudo sociológico, mas uma reflexão sobre um problema estrutural.



Capa do livro (Foto: Editora primeiro lugar)


Toda a primeira parte do livro é dedicada a histórias de atletas que durante suas carreiras sofreram ataques homofóbicos dentro ou fora de campo. Entre elas, a de Justin Fashanu, considerado o primeiro jogador de futebol da liga inglesa a assumir a homossexualidade publicamente. A partir de informações do documentário Forbidden Games, o livro reconta altos e baixos da vida de Fashanu e mostra o dilema e os problemas psicológicos vivenciados por ele ao longo da sua carreira.

As páginas seguintes do livro tratam do único jogador profissional brasileiro que fala abertamente sobre sua homossexualidade, Jamerson Michel da Costa, que usa o nome "Messi" estampado em seu uniforme.



Justin Fashanu (Foto: Reprodução)


O jornalista entrevista no livro o historiador e sociólogo Maurício Rodrigues, que faz uma reflexão sobre o preconceito sofrido pelo ex-jogador do São Paulo Richarlyson e sobre o caso de Emerson Sheik. Emerson postou uma foto beijando um amigo e viu isso repercutir negativamente entre os torcedores corinthianos. O sociólogo também critica a mídia, que, segundo ele, ainda não promove debates sérios sobre a homofobia no futebol e com isso endossa alguns desses discursos.



Emerson Sheik beijando seu amigo Izac comemorando vitória do Corinthians (Foto: Reprodução)


A segunda parte do livro descreve o dilema dos torcedores apaixonados pelos seus clubes mas que repudiaram os cantos homofóbicos proferidos por parte das torcidas organizadas. Em forma de protesto, esses torcedores criaram páginas no Facebook com conteúdo de apoio ao movimento LGBTQIA+. O jornalista palmeirense William de Lucca também dá seu depoimento sobre como foi ouvir os gritos preconceituosos da torcida estando no meio dela na arquibancada. Há ainda um capítulo todo dedicado à Coligay, torcida organizada do Grêmio criada por Volmar Santos, que em plena ditadura militar conseguiu fazer muito barulho e história na trajetória do clube.



Coligay, torcida organizada do Grêmio criada em 1977 (Foto: Reprodução)


Nos últimos capítulos, Abel destaca o primeiro time formado exclusivamente por homens trans no Brasil, denominado Meninos Bons de Bola (MBB). Os relatos são impressionantes. Desde a dificuldade da transição hormonal até casos de homofobia e machismo vindos até mesmo de pessoas da própria comunidade LGBTQIA+. São apresentados também os nomes das ligas trans de futebol, demais times brasileiros e depoimentos de seus idealizadores.

Quando se fala em homofobia no futebol, o livro deixa claro que o histórico é horroroso e o momento atual ainda não é nada agradável - mas consegue manter um tom esperançoso, sinalizando que as coisas começaram a mudar. A obra destaca que o apoio dos clubes precisa ir além das postagens nas redes sociais e que a mídia tem um importante papel nessa luta. Para que a mudança seja efetiva é preciso que todos enxerguem o esporte pela mesma ótica de Abel: o futebol como manifestação cultural e um espaço de luta social e política.


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