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Jovens que dão à luz

Rosamaria Santos



Roberto Caprini durante entrevista com mãe adolescente. (Foto: Divulgação/SBT)


Um em cada cinco partos que acontecem no Brasil são de adolescentes. O dado em si já é alarmante, mas é ao assistir a reportagem Meninas Mães de Roberto Caprini, na qual números se transformam em rostos, que a estatística se torna mais impactante. Na matéria, exibida no programa Conexão Repórter do SBT, Caprini conta as histórias de menores de idade, moradoras das periferias de Fortaleza, cujos planos foram alterados pela gravidez precoce. Permeando a narrativa, há o envolvimento com drogas ilícitas, a pobreza e o julgamento da comunidade que dificultam ainda mais a vida​ das jovens mães. Para contar relatos tão árduos, o repórter fez da sensibilidade sua maior estratégia.


Com o objetivo de preservar a identidade das menores de idade, seus nomes foram trocados, no entanto, em dois momentos, a equipe comete o deslize de não colocar efeitos sonoros sobre a fala de uma médica e de uma enfermeira que acabam dizendo o nome verdadeiro de uma das meninas. Não parece que o erro tenha sido proposital, mas apenas uma falta de atenção que, claro, deveria ter sido evitada. Apesar do equívoco, a matéria não deixa a desejar em qualidade de conteúdo e de cobertura. O tema, que ainda é tratado como tabu, por meio da reportagem ganha a atenção de vários telespectadores, podendo ser discutido com a seriedade que necessita e, principalmente, considerando todos os pontos relevantes do assunto.


Caprini, com a responsabilidade de abordar o assunto sem o sensacionalismo que tanto prejudica a credibilidade da imprensa, tomou o cuidado de evitar comentários que poderiam acirrar o preconceito contra as garotas. Essa, inclusive, foi uma das questões que ele levantou ao perguntar aos vizinhos se eles iriam acolher as jovens. As adolescentes, que já passam por uma situação complicada o suficiente, ganham mais uma barreira para vencer quando amigos e conhecidos, além de não darem apoio, às julgam e se afastam. Os efeitos psicológicos que a atitude tem sobre a vida delas são imensuráveis. Uma das meninas, identificada como Ana, é a prova disso. Ela tem só 12 anos e de todas as suas amigas, apenas uma ficou ao seu lado depois que soube da gravidez.


Além da rejeição, as mães também enfrentam os medos da nova jornada, como o de não dar conta de cuidar de um bebê. Lúcia, de 14 anos, por exemplo, teve que encarar a maternidade sozinha porque o pai da criança, que vendia entorpecentes, morreu antes mesmo de saber que teria um filho. Diante das​ dificuldades​ de ter que sustentar outra pessoa com menos de um salário mínimo e de todas as incertezas que a experiência gera, o aborto foi a primeira opção considerada. Embora o procedimento seja proibido no Brasil, muitas mulheres recorrem a ele e, devido a precarização do atendimento, acabam falecendo. Não é possível dizer ao certo quantos óbitos em decorrência da interrupção da gestão ocorrem por ano no país, porque o governo não coleta dados apurados sobre a questão. Na verdade, ele ignora​ o assunto colaborando, dessa forma, com a morte dessas mulheres.


Quando o jornalista analisa o local em que as jovens moram e as relações estabelecidas no território, a ausência do Estado fica mais clara. Nas ruas, sem asfalto nem tratamento de esgoto, adultos desempregados e meninas mães relatam que a gestação na adolescência é tão comum que já não gera mais espanto. De fato, as regiões norte e nordeste concentram as maiores taxas de partos de garotas de até 19 anos. Como esperar uma realidade diferente de um lugar onde a maior parte dos moradores tem baixo nível de instrução e altas incertezas financeiras, onde o crime é quem dita as leis? Se falta o básico nessas localidades, chega a ser dispensável dizer que educação sexual está longe de entrar na agenda de políticas públicas.


A reportagem conduzida por Roberto Caprini se mostra atual e necessária neste período em que o conservadorismo extremo, adotado pelos governantes, atrasa decisões vitais a uma enorme quantidade de mulheres, adolescentes ou adultas. Na contramão do que o poder público faz, o jornalista lança luz sobre o que até agora foi ignorado e, assim, contribui para que pelo menos haja uma tentativa de solucionar a questão. É a partir da inquietação que as mudanças surgem e isso Caprini soube causar de modo positivo, sem precisar recorrer a sensacionalismo ou a qualquer outra atitude que humilhasse as entrevistadas. Ele mostrou que essas histórias individuais são um retrato de um problema muito maior e recorrente.




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