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“Jenipapo” e a problemática jornada moral por trás da construção de um “herói”

Julia Filgueiras


O americano Michael Coleman (Henry Czerny) trabalha no jornal bilíngue The Brazilian Tribune. Idolatrado por seu chefe e odiado por seus colegas de trabalho, o jornalista é encarregado de conseguir uma entrevista com o recluso padre Stephen Louis (Patrick Bauchau), também estadunidense, famoso internacionalmente por ser um defensor da luta dos trabalhadores pela reforma agrária no recôncavo baiano. Na difícil busca por um encontro com o líder religioso, Coleman lida com diversos conflitos éticos para concluir seu objetivo. Esse é o enredo de Jenipapo/ The Interview (1995), uma coprodução Brasil-EUA de Monique Gardenberg.

(Capa do filme/ Imagem: reprodução)


A redação do Brazilian Tribune tem altas expectativas. Uma entrevista com o padre seria determinante para o decorrer de uma votação no congresso, que pretende barrar a reforma agrária e dar mais poder aos grandes latifundiários. No entanto, apesar da motivação política do jornal, fica claro que, para Michael, a entrevista seria uma realização pessoal, uma forma de cessar sua obsessão.


Sua vida privada é moldada por esse anseio. Júlia (Júlia Lemmertz), sua fanática namorada, não por acaso, trabalha com um deputado membro da comissão de Reforma Agrária do Congresso. Através desses contatos, Michael se envolve também com Renata (Marília Pêra), uma companheira de Stephen que ele reconhece de seus arquivos de pesquisa. É ela que o aconselha a ir diretamente à São Gonçalo dos Campos, a cidade onde o padre reside, se realmente deseja encontrá-lo.


Dizendo ao chefe que tem uma entrevista marcada, o repórter parte imediatamente para a Bahia com apenas um nome como referência: Carlos Reis (Miguel Lunardi), o braço direito do “Father”. Quando se encontram, Michael omite sua profissão, diz ser um participante de uma organização de direitos humanos, que quer ajudar a causa sem-terra publicando manifestos do padre. Mesmo assim, não consegue encontrá-lo. “O culto à sua personalidade ofuscou o movimento”, diz Carlos, e por isso, a igreja não quer mais nenhuma publicidade.


Muito mais do que procurar a entrevista pelo seu possível impacto social, quando Michael releva o posicionamento do padre - de que aparecer na mídia comprometeria a sua luta - a lógica do jornalista é autocentrada, pautada apenas por suas ambições pessoais. Seu desejo pelo encontro é para salvar seu emprego, fazer seu nome com a publicação de uma matéria “bombástica”. Por isso, extrapolando todos os limites éticos, ele forja as possíveis respostas do padre e entrega uma entrevista inventada.


Nesse momento, porém, o filme passa a ter outro significado. Revela-se que, na realidade, o padre não queria contato com a imprensa porque escondia um segredo. Capangas mandados por fazendeiros inimigos, querendo chantageá-lo, conseguiram fotos que provavam que ele e Carlos estavam em uma relação amorosa.


Assim, quando saem os jornais, o padre não nega a entrevista. A repercussão, ao contrário do que havia alegado, é muito positiva para o seu trabalho. Sua relevância é tamanha que consegue mudar os rumos da votação no Congresso, dando a vitória para os trabalhadores. No entanto, para evitar que as fotos sejam vazadas e toda sua luta seja dificultada e descredibilizada, Stephen vai até os fazendeiros e se entrega à morte.


No Rio de Janeiro, Coleman é recebido como um herói. Em São Gonçalo dos Campos, Stephen Louis se torna ainda mais amado pelo povo. Ambos, apesar de colocarem suas vidas pessoais à frente de sua responsabilidade social, acabam fazendo o “bem”.


(O povo de São Gonçalo dos Campos festejando a vitória na votação à frente da igreja/ Imagem: reprodução)


(Michael sendo festejado na redação do jornal/ Imagem: reprodução)


No entanto, a narrativa é construída de tal forma que sugere uma simetria entre histórias que são absolutamente diferentes. Quando sai a edição do Brazilian Tribune com seu nome estampado na capa, Stephen admite a sua equipe que não foi ele que deu a entrevista, mas que gostaria de ter sido. Enxergando que “suas” palavras foram capazes de mudar a situação de seus apoiadores, o sacerdote releva a farsa e entende que se entregar à morte é a saída para não ameaçar essa vitória. O padre não esconde sua sexualidade para atender a uma vontade individual, mas para evitar que a sua vida pessoal seja maior que sua militância. Michael, por outro lado, apesar de gerar consequências “socialmente positivas”, age de forma individualista, faz o que faz para se sair bem – e ao final se sente culpado por isso. Posto isso, apesar do cenário “politizado”, Jenipapo não é um filme com uma mensagem política. Na verdade, dá a sensação de que o conflito é só um elemento “regional” para uma narrativa estrangeira, com um discurso de princípios questionáveis.


Fica claro, a intenção é que a aventura moral dos personagens seja o tema central na obra. No entanto, quando se mistura com todo o pano de fundo político e jornalístico, o filme levanta um conflito ético que, além de injusto, não faz muito sentido fora da ficção. O filme, praticamente todo em inglês, é protagonizado por estadunidenses e mostra uma história que não parece se passar em terras brasileiras. Que jornal influente (e bilíngue!) publicaria uma entrevista com uma liderança de um movimento a favor da reforma agrária que repercutiria, positivamente, no país e no exterior, a ponto de mudar os resultados de uma votação no congresso?


A obra pode trazer debates interessantes, mas não leva a nenhuma síntese porque levanta questões demais e não se aprofunda em nenhuma. Os atores brasileiros, reconhecidamente incríveis, ocupam todos os papéis secundários, têm aparições tão genéricas que poderiam ser cortadas sem alterar em quase nada a história. O conflito agrário, o apoio da Igreja à causas sociais, a repressão sofrida por um padre homossexual, o jornalismo empresarial e a busca por um furo de reportagem a todo custo – todos os temas se ofuscam e perdem a sua potência quando são trabalhados ao mesmo tempo, sem desenvolvimento. A questão ética, que é mais trabalhada, não comunica muita coisa. Afinal, o filme não comove, mas com a generosidade do espectador, pode fazer pensar.


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