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Em defesa da múmia

Nelson Rodrigues propõe um Brasil possível e alerta para o anti-Brasil


Por Antônio Ribeiro


Nelson Rodrigues, fumando. Foto sem data/Reprodução: Veja

Nelson Rodrigues é um visionário irredutível. Fale o que quiser, pense o que for, ele viu o óbvio ululante.


Se ainda restam concessões obrigatórias, vomite tudo o que te incomoda e a figura, porém, permanecerá brilhante. Sua relação com a ditadura, suas provocações célebres ao Dom Hélder, seu reacionarismo… enfim, todo o lado controverso de uma flor de obsessão reforça sua convicção de que Opinião, assim, com “o” maiúsculo, é coisa pessoal e indomesticável. Além de qualquer moral, o ser humano é bicho complicadíssimo, descontínuo, incongruente. Viu isso e mergulhou na verdade inconfessa do homem.


Essa percepção está no cronista, no teatrólogo, no jornalista. Em suma, fez dos seus textos o que são. Ache isso ou ache aquilo, há o fato inconteste representado com toda sua força de realidade na obra do anjo pornográfico.


Nelson Rodrigues não pode ser apagado. Mesmo assim, foi diminuído, cochichado! Ora, sua obra não merece sussurros. Por isso, achei interessante comentar algo do seu trabalho num ímpeto, quem sabe, de expurgar essa sandice doida de que não se deve ler “reaças” e múmias. Nelson Rodrigues propõe um Brasil possível e alerta para o anti-Brasil: Precisamos resgatá-lo.


Nesse caso, Oitenta milhões de vendidos, que pode ser encontrada em O óbvio ululante, em edição da Companhia das Letras, é um fragmento exemplar do projeto e — por que não? — da profecia. Esta crônica/ensaio foi publicada em sua coluna no O Globo em 28 de maio de 1968. Ela postula o seguinte: opinião é “uma posição solitária, um gesto de orgulho e desafio”. No entanto, há pessoas que insistem em viver todo um ciclo humano sem esboçar razão autêntica.


Por exemplo, hoje, apesar da sensação de atomização das redes sociais, o que mais existe são reproduções desavergonhadas de visões alheias, concordam? Basta abrir o Twitter (ou, agora, “X”) … por pior que seja, fica ainda mais patético se pensar que não declaram essa apropriação abjeta.


Perfil reproduz acriticamente notícia falsa sobre filósofa


No caso descrito pelo Nelson, um professor da PUC — sempre da PUC — ministra um curso anti-imperialismo. O sujeito era um progressista: odiava os Estados Unidos, endeusava “o velho”, etc. Até aí, nada de novo. Porém, numa alegação inconsequente, sugere a corrupção do Café Filho, ex-presidente do Brasil. Bom, não era qualquer corrupção, tinha aquele ar de passividade orientada, de sugestão yankee incorporada por brasileiros.


E foi isso que alarmou o Nelson. Não foi o esquerdismo, não foi nem a falta de ufanismo: foi a ausência obscena de autonomia cognitiva do Brasil.


Vocês sabem, nos anos 60 a Teoria da Dependência era coisa muito popular. E aqui está nosso querido autor esculhambando a teoria que hoje é tão criticada nas academias brasileiras. O mais interessante é que os argumentos são os mesmos! É a defesa irrestrita da autonomia e agência do brasileiro, apesar do seu complexo de vira-lata.


Eis a hipótese: querem o brasil de quatro cuspindo na própria imagem. Por favor, há todo um país a ser feito. Guerrilheiros do Cosme Velho, não joguem contra! O primeiro passo para uma transformação sensível de nossa condição é a responsabilização, a culpa - que seja! Mas, com ela, a autoestima, a liberdade.


Que maldição, não? Duzentos anos de independência e permanecemos dominados! Claro que é um engodo. Na verdade, é preciso admitir os problemas do Brasil se quisermos superá-los. É necessário enxergar o óbvio para profetizarmos uma concepção autêntica de quem somos e o que queremos ser.


Jornal Ultima Hora (RJ). Ano 1952\Edição 00197. Acervo Hemeroteca Digital



































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