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Em busca de um lugar ao pódio.

Reportagem aborda as dificuldades enfrentadas por atletas em categorias de base.

Larissa Carvalho

Diariamente, meninos e meninas de categorias de base apostam em novos destinos, cruzam o país e se entregam aos seus respectivos sonhos de se tornarem atletas profissionais. Tudo é muito incerto: não há garantias futuras, porém lhes é exigida uma constância de dedicação no presente. Inspirados pelo incêndio trágico dos Garotos do Ninho, Ingrid Achiver, Elvis Rodrigues, Luan Carlos, Paulo Henrique e Gabriel Ferreira produziram a reportagem Em busca de um lugar ao pódio, cujo objetivo é revelar os desafios de adolescentes e jovens brasileiros na caminhada em busca do sucesso no mundo esportivo.

Em fevereiro de 2019, dez meninos faleceram após incêndio no Centro de Treinamento do Flamengo. Jorge Eduardo foi um deles. Assim, a reportagem inicia abordando a história desse mineiro de 15 anos e as etapas pelas quais ele passou até, finalmente, viver o que era considerado um sonho: ser da categoria de base do rubro-negro carioca. Em entrevista com Homero Povoleri, ex-treinador de Jorge, é revelado o quanto o menino havia ficado feliz por saber que iria para o Ninho do Urubu. O início da narrativa é bem profundo, já que nos faz refletir sobre como seria o futuro do jovem garoto se sua vida não tivesse sido tragicamente interrompida.


Assim, o texto se desenrola trazendo informações estatísticas a respeito das categorias de base dos três grandes clubes de Minas Gerais. Mais declarações de Homero são apresentadas, ele é treinador do Democrata Além Paraíba há 11 anos, time de futebol que recebeu Jorge quando ele tinha apenas 7 anos. Os relatos do técnico envolvem não só o sonho do garoto, como também explicam sobre o nível de preparação exigido aos atletas para que consigam alcançar grandes clubes nacionais: “Nem todos vão chegar a esse nível.”

O futebol feminino também foi abordado, o que amplia a riqueza de conteúdo da reportagem e a torna uma produção de caráter inclusivo, já que, por vezes, as meninas e mulheres são tratadas como coadjuvantes no esporte citado. Se tentar a sorte no futebol masculino já é difícil, a categoria oposta se mostra ainda mais desafiadora, com mais barreiras a serem superadas e com menos oportunidades, O relato de Kim, goleira de 19 anos do Cruzeiro, exemplifica essa afirmativa: “tem meninas que dormiam no chão, demoravam para se alimentar.”


Antes de chegar às categorias de base de grandes clubes esportivos nacionais, os jovens atletas precisam passar por testes avaliativos. As chamadas “peneiras” são tratadas na matéria a partir da experiência de atletas juvenis do voleibol. É possível conhecer de perto algumas histórias de rapazes que tentaram a sorte em várias peneiras até conseguirem a tão sonhada vaga. “O mais difícil de tudo é a cabeça. Ficar longe dos pais e, às vezes, não ter experiência e sabedoria”, desabafa Guilherme Rech, o qual deixou seu estado de Santa Catarina para treinar no Sada, em Minas Gerais.


Imagem: Reprodução


As histórias contadas têm nome, idade, lugar e voz. Todos esses elementos são importantes para aproximar o leitor da temática abordada, uma vez que trazem mais valor e emoção às histórias exploradas. De um lado, experiências de atletas, até então, desconhecidos; de outro, o simbolismo de uma das maiores profissionais do voleibol brasileiro: Sheilla. A trajetória dessa multicampeã é contada desde o início até chegar aos títulos e prêmios conquistados por ela. Um exemplo significativo ao deixar para o leitor, em contraponto às dificuldades antes relatadas, um ambiente de esperança, de inspiração e de que é possível chegar ao topo.


Por fim, a reportagem se encerra com a história de Lucas Tobias, multicampeão de trampolim em busca das Olimpíadas. Brincando ainda na infância, ele se apaixonou pela modalidade e decidiu se dedicar a esse esporte que é considerado um sucesso na cidade dele, Ouro Preto. “A gente trabalha com muita disciplina, porque é um esporte de risco”, comenta ele. Tratar de um esporte olímpico individual e pouco disseminado no país é relevante para que o conteúdo se revele pulverizado e amplie a variedade de informações proporcionadas ao leitor.


As imagens escolhidas e a disposição delas ao longo das dez páginas auxiliam no processo de informação a partir de uma linguagem não-verbal e ilustram alguns importantes personagens e cenários citados. Aliás, é interessante a forma como visualmente o título da reportagem sofre uma crescente de maneira bem sugestiva, com o trecho “ao pódio" destacado, em um jogo de tamanho das palavras fazendo referência à altura de um pódio e a caminhada de subida.



Imagem: Reprodução


Chegar até o nível profissional não é fácil e a matéria consegue humanizar todo esse processo, seja pela realidade das histórias compartilhadas, seja pela inclusão de modalidades femininas e individuais, seja pelos dados apresentados. Após a leitura, fica o sentimento de torcida por todos os atletas brasileiros que abrem mão de uma vida considerada “normal” almejando a realizar de seus sonhos. Em busca de um lugar ao pódio foi publicada na Edição 28 da Revista Laboratório “Curinga”, da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), e concorreu na categoria de “Reportagem em Jornalismo Impresso” pela premiação da Expocom Sudeste.




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