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Cowspiracy: o papel da agropecuária na destruição do meio ambiente

Ana Clara Prevedello


Uma pessoa que toma banhos rápidos para economizar água e acha que está ajudando o planeta de fato está - mas, se comer um hambúrguer, gastará o equivalente a dois meses de banho. Isso acontece porque a agropecuária utiliza água de forma intensiva na produção de carnes e laticínios, respondendo por 30% do consumo de água no planeta. Além disso, a agropecuária é responsável por 51% de todas as emissões mundiais de gases de efeito estufa e por 91% da destruição da Floresta Amazônica. É essa a tese dos cineastas norte-americanos Kip Andersen e Keegan Kuhn em seu documentário Cowspiracy: O Segredo da Sustentabilidade, com base em dados apresentados por organizações de pesquisa, como o ScienceDirect, e por Martin Hickman e Sergio Margulis, pesquisadores ambientais.

(Capa do documentário Cowspiracy / Imagem: Netflix)


Lançado em 2014 na Netflix, o documentário permanece atual e traz informações que ligam o consumo de carne à degradação do meio ambiente. Relatórios lançados pela ONU e por outras agências internacionais mostram que a pecuária, além de desempenhar um papel importante no aquecimento global, é a principal causa de destruição ambiental hoje. Michael Jacobson, cientista americano e microbiólogo, afirma que a água utilizada para a criação de animais corresponde a 55% do consumo de água nos Estados Unidos, contra apenas 5% do consumo de uso doméstico.

Um dos problemas expostos por Andersen é a conduta de grandes empresas da agropecuária, que tentam negar seu papel na destruição do meio ambiente. Entrevistada para Cowspiracy, Wenonah Hauter, diretora executiva do Food & Water Watch, esclarece: “Quando se enxerga quem se beneficia com este sistema de agricultura, percebe-se que são os maiores produtores de carne do país. Eles se tornam tão grandes e ricos que podem ditar as políticas sobre a produção de alimentos. Eles têm muito poder político.” Wenonah deixa claro que os produtores da agropecuária colocam seus interesses financeiros acima da preservação ambiental e, assim, colaboram para a destruição da natureza.

Além disso, as organizações ambientais alegam que confrontar algo tão central como o estilo de alimentação de uma sociedade pode ser um risco. Essa mesma sociedade se sente ameaçada por ter que mudar de conduta ou parar de consumir produtos. Potenciais doadores, que poderiam colaborar com essas instituições, acabam desistindo de contribuir. Por isso, a questão central defendida pelos diretores é de que a mudança precisa ser mais ampla, caso contrário a sociedade irá financiar o esgotamento dos recursos naturais do planeta.

Outra questão abordada por Cowspiracy é a fome. Richard Oppenlander, pesquisador do Meio Ambiente e autor de “Food Choices and Sustainability”, afirma que 82% das crianças afligidas pela fome vivem em países nos quais os alimentos são dados – de forma excessiva e desnecessária – aos animais nos rebanhos dos sistemas pecuários, que são mortos e consumidos pela população em lugares desenvolvidos, como Estados Unidos e Reino Unido.

Se a quantidade consumida de carne, laticínios e ovos fosse reduzida, as monoculturas geneticamente modificadas de milho e soja – que são usadas como alimento para a pecuária – poderiam virar plantações de proteínas vegetais para seres humanos. Como afirma Howard Lyman, ativista dos direitos animais que promove a nutrição vegana e a agricultura orgânica, “se é possível cultivar milho para enfiar na goela de um animal, também é possível cultivá-lo para um ser humano.”

Andersen demonstra, em seu documentário, os benefícios de uma alimentação vegana não só para o meio ambiente, mas para os seres humanos. Transformar a comida destinada para a pecuária em alimento para a população diminuiria a fome, reduziria o consumo de água, de ocupação de terras e de emissão dos níveis de CO2. Muitas áreas de criação de gado poderiam virar novamente florestas, que serviriam de habitat para os animais.



A quantidade gasta de CO2, combustíveis fósseis, água e espaço de terras em uma dieta onívora (à esquerda) e em uma dieta vegana (à direita). Imagem: Reprodução/Netflix


Em termos futuros, a agropecuária se torna cada vez mais insustentável: 216 mil pessoas nascem no planeta todos os dias. Andersen afirma que oferecer a essa quantidade de indivíduos uma dieta de alto consumo de carne, laticínios e ovos requer, por dia, 34 mil novos acres de terras cultiváveis – algo que provocará o esgotamento de todos os recursos naturais do planeta -.

O documentário Cowspiracy: o Segredo da Sustentabilidade mostra, assim, que a preservação da natureza depende da responsabilidade alimentar dos seres humanos. E defende a transição alimentar para o veganismo como uma necessidade ecológica, que envolve valores altruístas e que pode trazer benefícios para o planeta.


FICHA TÉCNICA

Documentário: Cowspiracy: O Segredo da Sustentabilidade

RESUMO: Entenda porque a agropecuária é a principal causa de esgotamento dos recursos naturais e de que forma isso impacta o mundo.

Diretores: Kip Andersen e Keegan Kuhn.

Duração: 1h31min.

Onde ver: Netflix.



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