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Confira o que aconteceu nesse sábado (12) no 15º Congresso da Abraji

Atualizado: 15 de out. de 2020

Lianne Henriques, Luana Reis, Igor Vieira, Lívia Vardasca, Felipe Galeno, Ruth Scheffler, Larissa Carvalho, Alan Souza, Rosamaria Santos e Juliana Castro


No último sábado (12) às 9:55 da manhã, a secretária-executiva da Abraji, Cristina Zahar abriu o segundo e último dia do 15º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo.


A agenda contou com painéis sobre Meio Ambiente e Amazônia, com Jonathan Watts (The Guardian), Kátia Brasil (Amazônia Real) e Bernardo Esteves, da Piauí. Em seguida, a diretora de redação do Le Monde, Cécile Prieur, contou como o jornal francês está se preparando para o futuro. Tivemos a pauta racismo dentro e fora da redação, com Nikole Hannah-Jones, do The New York Times, Yasmin Santos, da Revista Piauí, e Flávia Lima, da Folha de São Paulo. E, também, para quem gosta de podcasts, uma mesa com participação de Renata Lo Prete do O Assunto, José Roberto de Toledo, do Foro de Teresina e com Conrado Corsalette, do Durma com Essa. Você pode conferir a programação completa no site Congresse.me.


(Imagem: Reprodução)


  • O que mudou na cobertura do Guardian sobre o meio ambiente e a Amazônia?

No painel em que participou Kátia Brasil, uma das fundadoras e editora-executiva da Amazônia Real, Bernardo Esteves, repórter da Revista Piauí desde 2010, e Jonathan Watts, do jornal inglês The Guardian, foram abordados diversos aspectos das coberturas jornalísticas sobre o meio ambiente. Jonathan relatou que após o Relatório 1.5C do IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change), o The Guardian realizou algumas mudanças internas, como a utilização de uma linguagem mais incisiva, usando, por exemplo, o termo “crise climática” em vez de “mudança climática” e “aquecimento global” (usados anteriormente, suavizando a gravidade do problema), a recusa de anunciantes vindos da área de petróleo, e a ampliação da equipe que se dedica à temática ambiental, além do envolvimento com trabalhos colaborativos, dentre os quais pode ser citada a parceria com a Repórter Brasil. Outro ponto ressaltado pelo jornalista foi a importância da pauta ambiental estar no centro dos jornais, a fim de que ela seja um prisma pelo qual o leitor possa entender o que está acontecendo no mundo. A magnitude dessa temática foi expressa em umas das frases proferidas por Watts na entrevista: “Não é questão de ser sensacionalista mas ter um senso de urgência”.

  • Modelos alternativos de paywall, inovação e Tik Tok: como o jornal francês Le Monde vem se preparando para sobreviver

Frente ao contexto de pandemia, o jornal francês Le Monde tomou algumas iniciativas para se adaptar ao período da melhor forma possível. Os maiores objetivos, segundo a vice-chefe do jornal, Cécile Prieur, consistem em manter o apoio dos leitores, com suas assinaturas, mas utilizar um sistema de paywall misto para, ao mesmo tempo, atrair um público maior.


As principais matérias do Le Monde feitas por especialistas, por exemplo, ficam na aba paga do site, mas isso não significa que não há informação de qualidade gratuita. Uma parte da série de inovações tomadas pelo jornal foi a criação da aba “Les Decodeurs”, que tem o objetivo de informar gratuitamente sobre o coronavírus e outros acontecimentos importantes. Ainda no site do jornal, aconteceram lives, durante três meses, que cobriam a pandemia e contavam com um espaço de interação com o público. O número de espectadores do streaming chegou a um milhão.


O jornal também chegou às populares plataformas TikTok e WhatsApp. Na primeira, o time de inovação se dedicou a produzir vídeos informativos sobre notícias relevantes, com tom lúdico e bem humorado com o propósito de alcançar o público mais jovem e democratizar o acesso à informação. “Não é porque somos o Le Monde que somos muito antigos ou sérios demais. Nosso trabalho foi trazer as notícias e o jornalismo de uma forma democrática e sem perder a excelência”, explicou a vice-chefe.

  • Crescendo audiências e gerando receitas no Facebook

Uma revolução acontece nas redes sociais: elas pulverizaram a maneira de gerar receita a partir dos mecanismos do marketing digital e da publicidade. Na palestra com Maíra Carvalho, representante do Facebook no Brasil, foram-nos apresentadas não somente estratégias de monetização, como também as maneiras de melhor executá-las a partir de ferramentas disponibilizadas pela própria plataforma. Se o jornalista é hoje, também, um criador de conteúdo, é importante que entenda como as ferramentas publicitárias atuam na maior rede social do mundo.

  • Racismo dentro e fora das redações

A conversa entre as jornalistas Flavia Lima, do Folha de São Paulo, Nikole Hannah-Jones, do The New York Times,​ e Yasmin Santos, ex-funcionária da Revista Piauí, abordou o racismo na sociedade e seus efeitos dentro e fora das redações. Trazendo um panorama geral das relações étnicas e compartilhando suas experiências, as três criticaram a forma como a mídia cobre casos de discriminação e apontaram possíveis soluções para o problema. O debate também contou com a colaboração dos ouvintes, que fizeram perguntas muito interessantes, principalmente sobre as críticas sofridas pelo projeto de Nikole, 1619 que conta a história e importância da população preta para a formação dos Estados Unidos.

  • Saúde mental dos jornalistas em tempos de pandemia

Se antes da pandemia muitos jornalistas já sofriam com depressão, ansiedade e pânico, a cobertura da Covid-19 intensificou o estresse nas redações. Em um contexto de valorização dos cuidados com a saúde mental, a Abraji foi certeira ao trazer ao Congresso um painel de discussão sobre este tema. Os convidados Meera Selva (Diretora do Programa de Fellowship no Reuters Institute) e Guilherme Valadares (Editor-chefe do Papo de Homem e professor do Cultivating Emotional Balance) se uniram a Luiza Bodenmüller (Gerente de Estratégia no Aos Fatos) para responder à pergunta: “É possível produzirmos jornalismo de alta qualidade e rigor ao mesmo tempo em que priorizamos a saúde emocional?”


Meera deu início à conversa falando sobre as mudanças no ambiente de trabalho dos jornalistas durante a pandemia. Ela conta que muitos não tiveram apoio da redação, que não entende as dificuldades de trabalhar em casa. Já Guilherme trouxe uma abordagem mais prática ao assunto, sustentada por dados e sugestões de atitudes. Ele explicou a existência de uma “epidemia” de saúde mental nas redações, comparando a cobertura da Covid com a do Furacão Harvey, em 2017. Por isso, ele propôs um convite para todos cuidarem mais da saúde mental e trouxe um “kit de primeiros socorros emocionais” para jornalistas, a fim de ensinar práticas que profissionais e redações podem adotar. As dicas envolveram a criação de uma cultura nas empresas que priorize o bem estar psicológico, a realização de treinamentos com especialistas no assunto e a instauração de políticas que garantam o cumprimento das medidas de saúde mental.

  • Você sabe como são produzidos os podcasts que falam da política nacional?

Quem não adora ouvir a um podcast? “Esse é o décimo quinto Congresso da Abraji que participo, mas a primeira live que faço em um Congresso da Abraji”. Foi com um comentário bem-humorado que José Roberto de Toledo, uma das vozes do podcast Foro de Teresina, da Revista Piauí, deu início a mais um painel do evento. Junto ele, que já foi presidente da Abraji e atualmente ocupa o cargo de editor-executivo da revista Piauí, Conrado Corsalette, uma das vozes do Durma com Essa, do jornal Nexo, e Renata Lo Prete, apresentadora do O Assunto, do G1, compartilharam os bastidores de seus trabalhos. O tom da conversa foi agradável como o de um bate-papo entre colegas e mostrou ao espectador como funciona o processo de escolha da pauta e produção em três dos maiores podcasts de política do Brasil, com nomes consagrados da profissão.

  • Bastidores de reportagem: Violência policial e acesso às armas

Guiada por Antonio Junião, fundador da Ponte Jornalismo, a palestra teve como participantes Sônia Bridi, repórter da TV Globo, e Nancy Dutra, editora do Fantástico. A ideia era abordar como se deram duas reportagens, uma sobre crimes cometidos por forças policiais e outra sobre o aumento de acesso às armas no Brasil. As investigações foram feitas e as matérias construídas, com base no jornalismo de dados. Em um pequeno vídeo transmitido, a equipe do Fantástico contou a dificuldade existente na busca por informações. São nesses momentos que a Lei de Acesso à Informação é imprescindível e deve ser utilizada.


Ao comentar sobre essas pautas, Sonia evidenciou a parcela de culpa do Estado em tentar esconder a realidade e afirmou que o papel da imprensa é fazer denúncias. Para Nancy, as coberturas foram feitas com o intuito de ampliar vozes e promover mudanças efetivas. A metodologia da montagem das reportagens também foi exposta e é baseada, segundo as jornalistas, em uma abordagem audiovisual muito bem pensada, editada com imagens roteirizadas para que o público se sinta atraído e a mensagem consiga chegar com clareza.

  • O papel do jornalismo no Brasil e nos Estados Unidos na cobertura da Covid-19

No painel com Jeff Jarvis e Rosental Alves, ambos professores de comunicação nos Estados Unidos, temáticas atuais foram debatidas, a exemplo de como a imprensa deve se posicionar perante governos disseminadores de inverdades em contextos de crise. Esse debate levou à reflexão sobre a objetividade no jornalismo. Para Jarvis, a obrigação da imparcialidade esconde a humanidade do jornalista e favorece a manutenção das estruturas dominantes e racistas.


Além disso, as relações jornalista-cientista e jornalista-redes sociais também foram analisadas. No panorama atual, é fundamental que a mídia se relacione de maneira efetiva com os profissionais da ciência de modo a priorizar uma informação sóbria e contundente. Novos caminhos foram apresentados para ter as redes sociais como aliadas no processo de recolhimento e divulgação da informação.

  • Jornalismo na fronteira

Participaram da palestra Angelina Nunes, do programa Tim Lopes, Marta Ferreira, jornalista do site Campo Grande News e Marcelo Beraba, fundador da Abraji. O objetivo da mesa redonda foi transportar os espectadores para a fronteira do Mato Grosso do Sul com o Paraguai, onde já foram assassinados 10 jornalistas. A mídia local diz que quando escreve sobre o crime na fronteira, escreve apenas informações gerais, por conta do medo, resultando na autocensura. Por isso, a cobertura de locais na fronteira, como Ponta Porã, fica dificultada. O perigo é constante, com milícias atuando na área. Além disso, para agravar, o Estado é ausente na fronteira. Assim o jornalista é impedido de atuar como agente transformador da realidade nessa verdadeira terra de ninguém.

  • Diários da tragédia: Repórteres e a cobertura de Covid-19

Abrindo a sessão da noite deste sábado (12), um fotojornalista e dois repórteres responderam: “Como é para um jornalista cobrir a pandemia?”. Com suas diferentes perspectivas e experiências durante os meses da Covid-19, Maiá Menezes (O Globo), Pedro Borges (Alma Preta) e Edmar Barros (freelancer) contaram seus depoimentos de uma forma emocionante.


Pedro Borges, editor da agência de jornalismo Alma Preta, trouxe um panorama sobre reportagens feitas no estado de São Paulo, que retratam a pandemia por meio da ótica racial. Ao falar dos desafios, o jornalista relatou: “Quando a gente percebeu que houve uma virada e a população negra passou a ser maioria da Covid-19, esses dados pararam de aparecer”.


O fotojornalista Edmar Barros apresentou imagens retratando a realidade brasileira (com foco em Manaus) circulando pelos principais jornais do mundo e descreveu como foi difícil manter a saúde mental durante os primeiros momentos de mortes por Covid-19 no Brasil. Suas fotos trazem diversas denúncias de teor jornalístico, assim como retratam a triste realidade da tragédia durante a pandemia.


Encerrando a mesa, a repórter do jornal O Globo, Maiá Menezes, também deu seu depoimento de como foi estar numa UTI dentro de um hospital de ponta e logo após surgirem suspeitas de estar infectada pelo vírus. Ao falar sobre essa cobertura, a jornalista ressaltou: “Eu acho que essa humanização tem que ser um recurso. Se colocar no lugar do outro e ter compaixão é essencial para sair vivo emocionalmente de um momento tão terrível quanto esse que a gente atravessou e ainda atravessa no país”.

  • Neofascismo: Modo de Fazer

O debate entre o editor do Estadão, Daniel Bramatti, e o filósofo Jason Stanley analisou a existência ou semelhança do neofascismo em governos como o do Brasil e dos Estados Unidos. Corajosamente, Jason explicou as razões que sustentam suas afirmações de que esses países são liderados por fascistas. Além disso, ele apresentou as formas como o regime antidemocrático atua e destacou a importância do jornalismo para combater o totalitarismo e os benefícios das multinacionais com a ruptura do regime popular.

  • Minicurso: Nunca usei a Lei de Acesso à Informação (LAI). Como faço?

Um dos minicursos oferecidos no segundo dia de Congresso teve como foco a Lei de Acesso à Informação (LAI). O "aulão" dado por Marina Atoji, gerente de projetos da Transparência Brasil, se destacou por não apenas explicar a lei, mas também dar dicas de como usá-la na produção jornalística hoje. Mediado pelo jornalista Luiz Fernando Toledo, o minicurso expôs em detalhes o funcionamento da lei que obriga o poder público a divulgar e a responder pedidos de acesso a certas informações.


Marina elucidou cada etapa de como esse acesso pode ser feito, definindo cada tipo de transparência e de resposta que podem ser exigidos dos órgãos. A partir disso, explicou como os jornalistas podem se beneficiar da LAI na hora de estabelecer pautas, escrever matérias ou checar fatos específicos. De casos simples à grandes furos de reportagem, a lei pode ser - e tem sido - usada para garantir um jornalismo honesto, e conhecê-la é essencial para jovens jornalistas, especialmente em tempos de ataques à transparência pública no Brasil.

  • Minicurso: Como fazer educação midiática para combater desinformação

Alana Rizzo (ex-diretora da Abraji e atual das Redes Cordiais), Natália Leal (Lupa Educação) e Patrícia Blanco (Palavra Aberta) se encontraram para compartilhar o trabalho de seus veículos de ensinar pessoas a interpretar criticamente as informações que recebem por meio da internet. Ao final da conversa, ficou o convite para que estudantes de jornalismo possam se interessar em praticar a educação midiática por meio de sua futura profissão.

  • Os efeitos da polarização na cobertura política local

Às vésperas das eleições municipais e em plena pandemia de Covid-19, a polarização política influencia cada vez mais o trabalho jornalístico no país. Para discutir o assunto, a Abraji trouxe Dagmara Spautz (colunista no NSC), Érico Firmo (colunista de Política e Editor do O Povo-CE) e Thiago Herdy (repórter do O Globo e da Revista Época). A conversa passou por diversos tópicos, como comentários tóxicos em portais de notícia na Internet, interações orquestradas nas redes sociais em período eleitoral, a importância do feedback do leitor para os veículos e a utilização das mídias digitais para transmitir informação de credibilidade.

  • Ataques ao jornalismo justificados pela Lei de Segurança Nacional (LSN)

Antes de fechar a noite do segundo dia de evento, aconteceu um painel sobre o papel da polêmica Lei de Segurança Nacional (LSN) em recentes reações do governo Bolsonaro à manifestações jornalísticas. Mediada pelo criador do portal Poder 360, Fernando Rodrigues, a conversa partiu do ataque sofrido pelo cartunista Renato Aroeira, um dos participantes da discussão. O artista criticou alguns comentários do presidente Jair Bolsonaro por meio de uma charge, e foi atacado pelo Governo, que abriu um inquérito tentando enquadrá-lo na LSN. Aroeira falou sobre o quão inesperado foi ver sua simples piada ser considerada uma “ameaça à segurança nacional”.


O outro participante da mesa, o jornalista e professor Eugênio Bucci, destacou o perigo que a Lei de Segurança Nacional, criada durante o período da Ditadura Militar, tem representado para a imprensa. Um dispositivo que supostamente serviria para garantir a integridade nacional acaba sendo usado para responder de forma truculenta qualquer posicionamento dissidente. Os convidados discutiram as possibilidades de solução diante do uso da LSN e reconheceram a necessidade de se continuar fazendo jornalismo mesmo diante de ameaças.

  • Encerramento

Para o encerramento do 15° Congresso da Abraji, o presidente da associação, Marcelo Träsel, prestou uma homenagem aos colegas de profissão que faleceram em 2020.


“Nós acreditamos que a melhor maneira de homenagear essas pessoas é seguir produzindo bom jornalismo. É por isso que a Abraji se coloca na defesa dos jornalistas, da liberdade de expressão, do acesso à informação pública, e da democracia. Sobretudo neste contexto de hostilidade inédita contra a imprensa desde o período de Ditadura Militar.”


No final, ele agradeceu aos quase dez mil inscritos no Congresso desse ano e convidou para que os espectadores acessem o site da Abraji para conhecer mais sobre o trabalho da organização.

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