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“Coisa Mais Linda” traz à tona a desigualdade de gênero no jornalismo

Série expõe misoginia dentro das redações na década de 50 que persiste até hoje.


Laura Rocha


“Não precisa ser nenhum gênio para escrever como uma mulher.” Com essa frase, o chefe da revista ficcional Ângela explica à Thereza Soares, única jornalista em meio a uma redação de homens, o porquê de não querer contratar mais uma repórter – mesmo que os artigos fossem todos destinados ao público feminino. Só que esse não é o único momento em que a desigualdade de gênero no jornalismo é escancarada em Coisa Mais Linda, série brasileira da Netflix que se passa no final da década de 50, no Rio de Janeiro, abrindo espaço na trama, também, para os preconceitos que eram - e são até hoje - perpetuados pela mídia.



(Capa da série Coisa Mais Linda - Foto: Reprodução/Netflix)


Coisa Mais Linda foi lançada em 2019 e já conta com duas temporadas disponíveis. Ao longo do total de 13 episódios da série, diferentes temáticas sobre o papel feminino na sociedade em meados do século XX são levantadas, trazendo recortes sociais e raciais. Entre esses assuntos, está a ascensão de Thereza no jornalismo, tendo que enfrentar o machismo e a misoginia por parte de seus colegas de trabalho. Atualmente, as redações jornalísticas contam com cerca de 64% de mulheres, mas, na década de 50, isso não era bem assim.


Interpretada pela atriz Mel Lisboa, Thereza se destaca como a única ou uma das poucas mulheres nos locais em que trabalha, primeiro, na Ângela e, depois, na Rádio Brasileira. Porém, não se engane, pois, apesar de ser a única jornalista na redação da revista, existiam, curiosamente, muitos outros nomes assinados de supostas repórteres nas edições. Essa confusão se explica quando ela aponta para alguns repórteres homens engravatados no ambiente de trabalho e revela: um deles é a “Cléo”, que escreve sobre saúde e ginástica, outro é a “Sissy”, da editoria de culinária (mesmo que, de acordo com a jornalista, ele não saiba fritar um ovo), enquanto um terceiro, o Gustavo, usa o pseudônimo de “Marieta” para falar sobre relacionamentos. Assim, pode-se entender que a revista Ângela queria a identificação do público feminino nos típicos artigos destinados a “donas de casa”, mas sem que fosse necessário confiar em jornalistas mulheres para isso.



(Thereza na revista Ângela - Foto: Reprodução/Netflix)


Além de ser minoria dentro da profissão, Thereza ainda tinha que escrever seus artigos girando em torno de “Qual roupa vestir no primeiro encontro?”, dicas de etiqueta e todos os estereótipos possíveis sobre os conteúdos destinados a mulheres. Por isso, muitas vezes, suas reportagens eram criticadas ou ainda vetadas por serem “revolucionárias” demais para época. Um exemplo disso foi numa reunião de pauta da revista, em que ela sugeriu uma matéria sobre as mulheres que correspondiam a mais de ⅓ dos trabalhadores da construção de Brasília - assunto quente no momento, já que a capital do país foi inaugurada em 1960 por Juscelino Kubitschek. A jornalista tinha sugerido ainda entrevistar uma personagem inovadora: uma grávida de sete meses que tinha dirigido sozinha por um longo percurso só para poder trabalhar nas obras da cidade. Porém, a reunião acabou em risos dos outros repórteres, com a sua pauta vetada e uma sugestão: escrever sobre uma miss de Brasília - nada além do esperado para jornalistas mulheres, não é mesmo?



(Mel Lisboa em cena de Coisa Mais Linda - Foto: Reprodução/Netflix)


Só que a abordagem da desigualdade de gênero no jornalismo vai além do preconceito praticado contra as jornalistas, falando, também, da misoginia perpetuada pela mídia. Isso porque, no último episódio da primeira temporada, Lígia, cunhada de Thereza e uma das protagonistas da série, é morta pelo seu ex-marido, Augusto, após um casamento de frequentes agressões verbais e físicas, incluindo um estupro. A cena do assassinato aconteceu enquanto ela e suas amigas comemoravam o Ano Novo de 1960 na Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro. Mas, para falar disso, os jornais usaram a manchete: “Seu único crime foi amá-la demais”.

Com foco na morte de Lígia, a segunda temporada se aprofunda na difamação pela mídia da imagem dela, que tinha o sonho de ser cantora, mas era proibida por Augusto. Tal versão da história dava justificativas para ele ter atirado na jovem e apoiava os argumentos de defesa no tribunal pelo feminicídio (por mais que esse termo ainda não fosse usado na época). Essa parte da série, por mais que fictícia, é capaz de ilustrar o que acontece até 2020: as tentativas de colocar a culpa na vítima pelos crimes cometidos contra ela, seja estupro, agressão ou, até mesmo, assassinato.


Por causa disso, desamparadas pela justiça e pela mídia, Thereza, junto com a personagem principal, Malu, interpretada por Maria Casadevall, decidiram fazer algo a respeito, protagonizando uma das cenas mais emocionantes da série. Elas se trancam dentro do estúdio da Rádio Brasileira, onde a jornalista trabalha, e entram ao vivo para contar a história da Lígia sob o ponto de vista delas. ”O amor pode ser muitas coisas. O amor é vida. O amor é acolhimento, aceitação. O amor pode ser também perdão. Mas, se tem uma coisa que o amor não é, é violento. O amor não é morte”, define Malu, emocionada ao falar da amiga falecida. Esse momento da série foi tão marcante que as atrizes falaram sobre o quanto se seguraram para não chorar durante as gravações.



(Thereza e Malu ao vivo na Rádio Brasileira - Foto: Reprodução/Netflix)


Já após 60 anos da linha temporal abordada na série, a desvalorização de jornalistas mulheres representada por Thereza, tanto pelos colegas de profissão quanto pelo público, persiste no Brasil. Além disso, os preconceitos disseminados pelos veículos midiáticos não ficam de fora. Isso é sentido por Mel Lisboa, atriz que interpreta Thereza, explicando que o fato de ser uma série de época permite o distanciamento sobre o momento abordado, promovendo a reflexão mais intensa sobre o que já foi conquistado e quais direitos ainda devem ser assegurados às mulheres.


Assim, Coisa Mais Linda consegue, apesar do recorte da década de 50, trazer temáticas necessárias e atuais sobre o papel das mulheres no jornalismo e o questionamento sobre os riscos de se disseminar informações tendenciosas, principalmente quando são sobre as vítimas de um crime. Por fim, a trama inova ao mostrar que muitos problemas da série já foram superados, como o fato de Thereza ser a única jornalista na redação, mas que ainda há muito caminho pela frente rumo a uma profissão isenta de discriminação e de preconceito.


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