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Baseado em história real, “Philomena” aborda o lado humano do jornalismo

Clarice Lopes


Na Irlanda de 1952, a jovem Philomena engravidou e seu pai, tomado pela vergonha, a enviou para o convento da Abadia de San Ross, que abrigava mães solteiras. Lá, em meio a exaustivas horas de trabalho braçal em troca de estadia, ela era constantemente humilhada pelas freiras, que não a permitiam esquecer de que seu bebê, Anthony, era fruto de um “pecado”. E, assim como as outras mães que viviam no local, foi forçada a entregar o filho à adoção. O tempo passou e Philomena, assombrada pela culpa, não deixou de pensar em Anthony; tentou, várias vezes, descobrir sobre seu paradeiro, mas nunca recebeu respostas de San Ross. No ano em que ele faria 50 anos, determinada a finalmente encontrá-lo, ela busca a ajuda do jornalista Martin Sixsmith. Esse é o ponto de partida de Philomena, um drama que envolve o espectador em uma jornada emocionante.


(Cena de Philomena / Imagem: Reprodução)


O longa, lançado em 2013, é baseado no livro-reportagem The Lost Child of Philomena Lee, escrito pelo jornalista Martin Sixsmith. Sob a direção do veterano Stephen Frears, recebeu quatro indicações ao Oscar — Melhor Filme, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Atriz e Melhor Trilha Sonora. Ainda que não tenha levado nenhuma estatueta, Philomena é um exemplo perfeito de uma história real que foi traduzida para as telas do cinema sem o uso de clichês hollywoodianos, que muitas vezes comprometem a profundidade da narrativa. O resultado é uma obra que mistura momentos de comoção e angústia com uma atmosfera leve e envolvente.


Judi Dench interpreta de forma excepcional a personagem-título, uma mulher que teve a vida marcada pela traumática separação de seu filho e, mesmo assim, carrega a fé católica e o otimismo aonde vai. Já Martin, representado por Steve Coogan, é um jornalista recentemente desempregado com uma visão cética do mundo e um humor cínico. O contraste entre personalidades tão diferentes é um dos elementos mais interessantes do filme. As interações da dupla rendem diálogos muito bem construídos que expressam a complexidade das personagens e conferem ao filme um clima mais descontraído, sem prejudicar a carga dramática.


Quando recebe a proposta de ajudar Philomena na busca por Anthony, Martin hesita, porque se trata de uma história de “interesse humano” o que, segundo ele, é “um eufemismo para histórias sobre pessoas ignorantes e vulneráveis para preencher jornais lidos por pessoas ignorantes e vulneráveis”. Porém, como tentativa de retomar a prática jornalística em meio a uma crise profissional, ele decide vender a pauta para uma editora e embarcar numa trajetória ao lado da esperançosa mulher. Mas Martin não esperava que a experiência seria mais do que um simples trabalho de reportagem.


Ao longo do filme, o jornalista — assim como o espectador — se vê cada vez mais envolvido com Philomena. Afinal, é quase impossível não se conectar a uma mãe que por tanto tempo carregou o filho consigo — na memória e em uma pequena fotografia guardada à sete chaves — sem nenhuma noção sobre a vida que o menino construiu. Por outro lado, à medida que se aprofunda na investigação, Martin fica indignado com as informações que descobre a respeito do que aconteceu com Philomena e do porquê ela nunca ter conseguido localizar o filho.


O senso de justiça do personagem faz com que ele frequentemente questione a postura passiva da mulher em relação à forma cruel como a Igreja Católica lidava com as fallen women, nome dado às mulheres que, como ela, fizeram sexo fora do casamento. No entanto, Martin aprende com Philomena que não há como voltar atrás e mudar o que já foi feito, e que, às vezes, encontrar a verdade basta para alcançar a paz de espírito. A essa altura da trama, ele está imerso na reportagem de maneira que entra em contradição com seus valores profissionais, dos quais ele era tão convicto. Para reportar a história de Philomena e Anthony, ele precisa deixar a impessoalidade e o ceticismo de lado e recorrer a uma perspectiva mais humana. Afinal, o jornalismo é feito por pessoas reais que relatam a vida de pessoas reais e, muitas vezes, a empatia do repórter e a proximidade dele com os indivíduos são elementos essenciais para o sucesso.


Philomena entrega uma história verídica de maneira sensível e verdadeira, com atuações brilhantes, trilha sonora impecável e fotografia fascinante que contribuem para o sucesso da obra. Graças ao roteiro, que foge do óbvio e não se apega só ao peso emocional da narrativa, o drama se destaca no gênero. Além disso, o filme deve entrar para a lista de assistidos de todo jornalista porque revela que contar histórias de “interesse humano” pode mudar a vida de quem as escreve, de quem as lê e também de quem as vive, como a carismática Philomena.


Disponível no Telecine Play.


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