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Aziz Ahmed reúne memórias da imprensa brasileira a partir das narrativas de 26 jornalistas

Isabella Rodrigues


Reunindo o depoimento de 26 jornalistas, Memórias da Imprensa Escrita recorda grandes eventos políticos, econômicos e sociais que marcaram o Brasil desde a década de 50 até o início do século atual, englobando relatos que permeiam as redações dos jornais que marcaram a história do jornalismo no país como Última Hora, Jornal do Brasil, Correio da Manhã, Diário Carioca e O Globo. O livro, que conta a trajetória de ingresso no meio jornalístico dos entrevistados, narra acontecimentos inusitados e aventuras divertidas, incluindo renomados profissionais da comunicação como Samuel Wainer, Roberto Marinho, Zuenir Ventura e Carlos Lacerda.


O autor, Aziz Ahmed, é carioca e começou no jornalismo em 1961, no jornal Correio da Manhã. Exerceu o cargo de chefe de reportagem nos jornais O Globo e Última Hora. Em quase 50 anos no meio jornalístico, Aziz viveu as grandes transformações da imprensa brasileira e as registra em Memórias da Imprensa Escrita por meio de entrevistas com os amigos de profissão. O prefácio de Domingo Meirelles, presidente da Associação Brasileira de Imprensa de 2014 até 2019, introduz de o conteúdo do livro: Aziz “conduz o leitor através de cenários vaporosos que albergam histórias jamais contadas, fiapos de episódios da imprensa contemporânea que permaneceram intocados na memória afetiva dos personagens que dão corpo e alma a este fascinante trabalho de pesquisa”. A ilustração de capa é do desenhista Marcelo Monteiro, do jornal O Globo. Fotografias, capas de revista e páginas de matérias publicadas nos jornais impressos, com as reportagens que alavancaram a carreira dos profissionais do jornalismo, fazem parte do acervo ilustrativo da obra.


(Capa do livro / Imagem: Reprodução)


Os depoimentos estão organizados pela ordem de nascimento dos entrevistados, do mais velho até o mais novo. O início de cada capítulo é marcado por uma ficha contendo uma foto do jornalista, o nome, a data de nascimento e os jornais em que este trabalhou. Além disso, um QR Code no canto da página pode ser acessado e, quando lido, direciona para o vídeo da entrevista na íntegra. Os relatos não sofrem interferência do autor, permitindo que os jornalistas se expressem da sua maneira, quase como em uma conversa. No meio das entrevistas, jargões são citados junto de suas explicações, como “cascata” (nome dado para textos inventados), “foca” (iniciante no jornalismo), além de assuntos que navegam entre a construção da notícia, o uso dos termos lead e sublead e a ética jornalista.


Se hoje o teclado de um computador é o melhor amigo de qualquer escritor, antigamente, os jornalistas dependiam do bom funcionamento das “pretinhas”, apelido dado ao teclado das máquinas de escrever. E, em contraponto com os dias atuais, as redações eram povoadas majoritariamente por homens. As descrições são bem detalhadas, Aziz eterniza memórias e revelações, episódios divertidos e trágicos, contando os bastidores de furos jornalísticos desafiadores, que, vez ou outra, chegavam até o repórter por acaso. Ainda, são mencionadas as dificuldades enfrentadas pelos jornais durante o período da ditadura militar e da censura à imprensa.


Nas histórias, conhecemos personagens como Cigarrinho, “ [...] sempre com um cigarro na boca”, que fazia observações sobre as manchetes que Milton Coelho da Graça escrevia quando era editor-chefe de O Globo, em 1982. “Seu Milton! Esta manchete não vai vender lá na Baixada. O povo de lá não vai entender nada disso”, dizia, de modo que Milton consultava Cigarrinho quando terminava de fazer uma manchete. Já Luís Edgar de Andrade, que trabalhava como correspondente do Jornal do Brasil em Paris nos anos de 1960, conta que a frase “O Brasil não é um país sério”, supostamente dita pelo presidente Charles De Gaulle e que teve a divulgação atribuída a Luís, nunca foi dita.


O jornalista Fuad Atala começou sua carreira no Correio da Manhã e destaca como uma característica do jornal “sua intransigente rebeldia a qualquer forma de censura”. Então, conta um episódio em que ele, Aziz Ahmed e Carlos Heitor Cony foram presos pelo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) por distribuir uma edição censurada do Correio contendo uma matéria de Aziz. Em outro capítulo, Cícero Sandroni relata o episódio marcante na sua carreira quando, em maio de 1959, Fidel Castro concedeu uma entrevista coletiva à imprensa no auditório da ABI. “Fui surpreendido quando ele reagiu com palavras duras e ofensivas a uma pergunta que fiz sobre quando a revolução promoveria eleições em Cuba: — Usted no es periodista! Usted es un provocador!”. Em outro momento, Cícero narra o evento em que aparece em uma fotografia abraçado pelo comandante.


Dentre os outros jornalistas que compõem a obra estão Arnaldo Niskier, Pery Cotta, Henrique Caban, Aluizio Maranhão, Anna Ramalho e Ricardo Boechat. Foi o último depoimento concedido por Boechat, morto em um acidente de helicóptero em São Paulo, no ano de 2019. Em 30 páginas, acompanhamos sua trajetória em meio a revelações e acontecimentos complicados. Com a repressão militar, no final dos anos 60, ocorreram muitas batidas de agentes do DOPS na casa em que vivia com a mãe e os irmãos, já que seu pai havia sido preso por ser um militante do Partido Comunista. Sua carreira jornalística teve início quando Boechat começou a vender livros de porta em porta, até que ao tentar vender para Kleber Saboya, diretor comercial do Diário de Notícias, que não comprou nada, mas pediu que o procurasse no jornal no dia seguinte. Quando chegou lá, sem muitas cerimônias, Boechat começou a trabalhar lendo correspondências.


Com as inovações dos meios de comunicação e com os impactos na organização da sociedade causados pelas redes sociais, o jornalismo mudou radicalmente. Ainda assim, a essência da profissão permanece intacta, o que faz de Memórias da Imprensa Escrita um livro fundamental para qualquer estudante da área, contendo recordações de uma época em que não havia internet e as notícias não chegavam de modo quase instantâneo como hoje.


O livro como um todo é divertido, leve e nostálgico. A experiência de leitura fornece a sensação de adentrar em uma máquina do tempo, que imerge o leitor nos acontecimentos históricos marcantes do Brasil e, ainda, resgata as origens do jornalismo no país, retratando principalmente a mídia carioca, a mais influente da época, uma vez que o Rio era a capital da República. Nesse contexto, Aziz Ahmed se aprofunda na biografia de jornalistas notórios que, como ele próprio, vivenciaram e registraram momentos preciosos para a construção da comunicação brasileira.




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