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“Ausência de malícia” e a antiética do jornalismo

Maria Eduarda Lourenço


Apesar do nome ter se popularizado apenas em 2016, durante as eleições presidenciais estadunidenses, as fake news estão longe de ser uma novidade. Informações falsas ou de conteúdo duvidoso circulam pela mídia há décadas. Algumas não causam nenhum grande dano; outras, porém, deixam para trás consequências graves na vida dos envolvidos. É sobre esse assunto que se trata o filme Ausência de malícia, do diretor Sydney Pollack, que, apesar de lançado em 1981, traz um enredo extremamente atual.


(Pôster promocional do filme / Imagem: Reprodução)

No longa, Joey Diaz, um líder sindical, é sequestrado e presumidamente assassinado em Miami. A polícia, sem pistas de quem possa ser o culpado, mira suas suspeitas no importador de bebidas Michael Gallagher (Paul Newman), que, apesar de ser filho de um falecido criminoso, não tem qualquer ligação com o crime. Megan Carter (Sally Field), uma repórter do jornal local Miami Standart, tem uma conversa com o procurador federal Elliot Rosen (Bob Balaban), que lhe deixa de propósito um arquivo da investigação acerca de Gallagher para que a jornalista escreva sobre o crime e traga visibilidade ao caso.


Ao descobrir que está sendo incriminado, Gallagher vai até o jornal cobrar a fonte de Carter, que se recusa a dizer. Mais tarde, ele tem seu negócio fechado por funcionários sindicais que, por lerem a matéria, acreditam no seu possível envolvimento no desaparecimento de Diaz. A partir daí, Gallagher, Carter e a polícia entram em um conflito, cada qual com seu interesse; ele quer se inocentar, ela quer levar a informação até o público e a polícia quer achar um culpado para o crime.


A trama foca na importância da apuração dos fatos pela imprensa e como sua falta pode resultar em consequências drásticas. Sem ter certeza de suas fontes e querendo apressar o furo de reportagem, Carter publica, inconsequentemente, informações e não parece aprender com o primeiro erro. Então, ele noticia a identidade do álibi de Gallagher sem autorização, a católica Teresa Perrone (Melinda Dillion), que foi levada por ele para fazer um aborto no dia do crime. Isso acaba levando a mulher a cometer suicídio. O enredo se complica ainda mais quando Gallagher e Carter se envolvem romanticamente, fazendo com que a investigação se torne um problema pessoal também para a jornalista.


A todo o tempo, Ausência de malícia põe em xeque a ética jornalística e as consequências da notícia divulgada de forma precipitada, sem que sejam ouvidas as versões de ambos os lados. A repórter é mostrada sempre como disposta a quebrar a ética do ofício em prol da notícia, seja publicando notícias sem fontes confiáveis, seja expondo informações ditas em off, seja usando microfones escondidos. Em todos os casos, o filme mostra o lado antiético da imprensa e a força que as palavras têm para espalhar fake news, principalmente quando essas vêm direto da boca do quarto poder.


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