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Após 30 anos, livro “Rota 66” vira série de sucesso da Globoplay

Em entrevista exclusiva, a roteirista Maria Camargo fala sobre os desafios da adaptação do livro e da participação do autor e jornalista Caco Barcellos na série


Júlia Marques e Herrera


Capa do livro "Rota 66" (Imagem: Reprodução/editora Record)

No dia 27 de outubro de 2022, a Globoplay publicou os primeiros episódios da série “Rota 66: A polícia que mata”, inspirada no livro-reportagem do jornalista Caco Barcellos. A obra, fruto de sete anos de pesquisas realizadas pelo repórter, reúne cerca de 7.500 casos de violência policial. O trabalho teve um importante papel ao denunciar abusos cometidos pela polícia, métodos de execução e, principalmente, a impunidade nos julgamentos. Caco começou a investigação em 1975, após a morte de três adolescentes de classe média alta, que foram perseguidos por policiais militares da Rota, Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar, da polícia de São Paulo.

O esquadrão, constantemente condecorado, escondia por trás da eficiência diversos assassinatos de civis inocentes — em sua maioria homens pobres, pretos e pardos. Para reunir provas dessa conduta, Caco criou um banco de dados onde concentrou informações sobre mais de 3.200 tiroteios envolvendo “pessoas suspeitas” e policiais militares. Utilizando fontes como o jornal Notícias Populares, obituários do Instituto Médico Legal, formulários preenchidos pelos próprios PMs, o jornalista conseguiu mapear um padrão de procedimento que consistia em simular resistência a prisão através de confronto armado e deslocar os corpos de lugar para que não fosse possível realizar um trabalho completo de perícia. Além disso, em alguns casos, os policiais retiravam os documentos de identificação das vítimas para que as mesmas fossem enterradas como indigentes. Dessa forma, a maior parte dos indivíduos mortos pelos oficiais da Rota eram considerados criminosos.

Através do banco de dados foi possível identificar vítimas e concluir que a maior parte das pessoas, brutalmente assassinadas pelos policiais militares de São Paulo, nem sequer tinham passagem pela polícia. Na obra, os altos números de mortos pela ROTA desde sua criação, em 1970, são comparados a algumas guerras em que o Brasil esteve envolvido, constatando-se por fim que nunca houve no país um conflito tão violento contra apenas um lado. O longo trabalho de Caco Barcellos foi essencial para reunir provas contra a PM, principalmente em uma época onde o sistema judiciário funcionava de forma a beneficiar os policiais e a versão dos fatos fornecida por eles.

O livro vencedor do Prêmio Jabuti de 1993, premiação mais tradicional da literatura brasileira, foi adaptado para uma produção audiovisual pelos roteiristas, Maria Camargo e Teodoro Poppovic. Os criadores da série enfrentaram a difícil missão de adaptar um livro com uma extensa gama de dados, fora dos padrões de uma produção cinematográfica, contendo uma denúncia tão importante.

Um dos desafios dos roteiristas e dos diretores da série, Philippe Barcinski e Diego Martins, foi adaptar as cenas de violência para o audiovisual. "Toda a equipe teve uma grande seriedade na hora de escrever e gravar essas partes fundamentais para a história, de forma que as mesmas não passassem um mensagem sensacionalista ou de espetacularização da violência”, conta a roteirista Maria Camargo. Dessa forma, pode-se ver na série momentos em que atos violentos estão implícitos, mesmo assim carregam um grande peso dramático, além de simbolizarem perfeitamente os fatos presentes na obra de Caco Barcellos.

“Outro ponto difícil que encontramos foi a quantidade de casos investigados pelo jornalista, já que dramaticamente seria impossível representar tantas pessoas com tão pouco espaço de tempo, além de gerar mais gastos. Por isso, tomamos a decisão de mesclar alguns enredos, juntando histórias de pessoas diferentes em um único papel, dando um foco maior para as questões que estão sendo tratadas, revela Maria. Quem assiste à série, observa os personagens de forma profunda, se identifica com eles, se sensibiliza com as mortes das vítimas e a dor de seus familiares.

A vida pessoal de Caco é um ponto que não é citado no livro, mas foi explorado pela série. “Essa estratégia foi adotada para ajudar na estruturação da adaptação. Entretanto, também tivemos dificuldades nesse aspecto devido à timidez de Caco Barcellos. Além de muito reservado, o jornalista falava pouco sobre seus casos, característica incomum em protagonistas. Devido a natureza da adaptação a solução encontrada foi criar uma personagem ficcional que se assemelhasse ao máximo com o repórter”, diz a cineasta. Assim, acompanhamos Humberto Carrão, ator que interpreta Caco na trama, em vários aspectos de sua vida como relações amorosas, a paternidade e os conflitos gerados pelo intenso envolvimento com a investigação.


Humberto Carrão interpreta o repórter Caco Barcellos na série. (Imagem: Reprodução/Globloplay)

“Caco participou de algumas reuniões com toda a equipe de criação. Nelas, o jornalista se mostrou muito generoso e solícito, fazendo poucas alterações no roteiro”, conta Maria. Chama atenção que mesmo com sua extrema discrição, Caco não apontou muitas ressalvas a respeito da exposição de sua vida pessoal. “A maior preocupação do repórter foi sobre a maneira como os policiais seriam retratados no enredo, além de sua conduta como jornalista”

A soma de todos esses fatores estão expressos na série que já é apontada por internautas como umas das melhores de 2022. Uma adaptação que faz jus a obra de Caco e homenageia o jornalista sem colocá-lo como o foco principal da trama. O trabalho detalhista e consciente dos roteiristas pode ser observado no resultado final da produção. A série passa uma forte mensagem de denúncia, abordando precisamente temas tão delicados como violência policial e os lutos das famílias afetadas.

As contribuições de Caco Barcellos para o jornalismo brasileiro durante suas mais de quatro décadas de atuação são fontes de inspiração para qualquer jornalista. Rota 66: A história da polícia que mata é um exemplo de persistência e profissionalismo de um repórter. Uma obra carregada de críticas, simbolismo, além da importante intenção de obter visibilidade para a história por trás das mortes de pessoas cruelmente assassinadas. A mensagem que Rota 66 deixa é de perseverança, do papel que um jornalista pode ter diante de impunidades, o afinco necessário para continuar dando voz aqueles que não tem e mostrando lados que não são vistos.

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