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“Aconteceu Naquela Noite”, a comédia romântica de época atemporal

Isabel Côrtes


"Acabei de terminar o pior filme do mundo", foi o que a atriz Claudette Colbert disse sobre o que veio a ser um dos maiores clássicos da história. Aconteceu Naquela Noite é aquele filme de época que todo amante do cinema deve assistir. Com um misto de romance e comédia, Frank Capra consegue criar, em 1934, uma obra que facilmente se encaixaria nas comédias românticas dos dias atuais. Foi o primeiro filme na história a conquistar cinco categorias do Oscar, com Melhor Diretor, Melhor Filme, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Ator e Melhor Atriz. A relação de amor e ódio entre os protagonistas Pete (Clark Gable) e Ellie (Claudette Colbert) encanta os apaixonados por um bom clichê romântico atual.


(Clark Gable e Claudette Colbert como Pete e Ellie / Imagem: Reprodução)


O enredo da história gira em torno da relação do jornalista fracassado Peter Warne com Ellie Andrews, uma mulher de família rica que resolve fugir do pai milionário (Walter Connolly) para encontrar seu pretendente, um piloto de corrida. O caminho dos protagonistas se cruza quando acabam obrigados a dividir o assento do ônibus, e Pete, recém-demitido, vê na fuga da mulher a chance de escrever sua grande história. Marcado por diversas reviravoltas, o caminho dos protagonistas até Nova York e a evolução de sua relação mostra, aos poucos, como vão se apaixonando. O tom de comédia é em boa parte trazido pelo jornalista, com seu jeito brincalhão e debochado, como parte do seu charme. Ellen, por outro lado, se mostra, no início do filme, como uma menina mimada e arrogante, pelas palavras de Pete, mas ao mesmo tempo forte e independente que aos poucos vai cedendo ao humor do companheiro de viagem.

Em um segundo plano, o jornalismo acompanha a história ao cobrir o desaparecimento da jovem, com detetives que a procuravam, anúncios de recompensas e manchetes sobre a fuga. É interessante observar que durante todo o filme, o protagonista parece estar sempre à procura de uma história para contar. Ainda que já fosse escrever a história de Ellie, em diversos momentos da trama ele diz “Vou escrever um livro sobre isso”, retratando a forma como o jornalista pensa cada acontecimento como uma história a ser contada. Apesar de ser apontado como fracassado, no final do filme, seu chefe contraria essa descrição e alega “para mim você continua sendo o melhor jornalista”, se referindo a Pete. Os trechos finais na redação do jornal e a busca por um notícia para capa mostram a correria e o desespero por um furo jornalístico, dramático e apelativo, que para muito além de mostrar a verdade dos fatos, busca impactar a maioria, um tema tão atual que ainda é um dos maiores dilemas do jornalismo hoje em dia.

A fotografia do filme é surpreendentemente boa, considerando a época em que foi filmado, com imagens claras e câmeras bem posicionadas o tempo todo. O roteiro de Robert Riskin merece destaque pelo ritmo ágil do longa, devido às mudanças rápidas de cenas e diálogos, que prendem a atenção. Outro detalhe é sua característica atemporal, visto que se não fossem pelas roupas, cenários e imagens em preto e branco, dificilmente saberíamos diferenciar de um romance dos dias de hoje. A atuação dos protagonistas é brilhante, principalmente sabendo que eles não se davam bem fora das telas. Apesar da produção conflituosa, de alguma forma, eles foram capazes de deixar os problemas de lado e produzir um bom filme.


(Famosa cena em que Claudette Colbert mostra as pernas / Imagem: Reprodução)


Entre vários momentos marcantes, uma das melhores partes do longa é a icônica cena em que Ellie pede carona mostrando suas pernas. O gesto que marcou uma das melhores cenas e que foi reproduzido por diversas outras obras, em um primeiro momento, foi recusado pela atriz, Claudette Colbert, que gostava de contrariar a produção. Outro elemento central no enredo foi o ônibus de viagem, onde se passam a maior parte das cenas dos protagonistas e onde acompanhamos a evolução de sua relação. Uma cena que merece destaque é a que todos os passageiros começam a cantar junto com um grupo de músicos e a energia contagiante da cena, talvez uma das melhores do filme, deixa qualquer um que assiste com um sorriso bobo e vontade de cantar também.


O cuidado com os detalhes nos olhares, palavras e gestos entre os personagens é responsável pela construção perfeita de um romance descontraído e atemporal. O mais incrível é o fato de que, seja qual for o tempo, não enxergarmos os protagonistas como um “casal de época”, da forma tradicional e patriarcal como era. As personalidades de Pete e Ellie se complementam e não deixam a obra se tornar cansativa, com diálogos e discussões que divertem o público.


Mesmo que possa ser considerado previsível, Aconteceu Naquela Noite nunca vai deixar de ser inovador. No fim, todas as baixas expectativas sobre o sucesso do filme foram contrariadas e a história de Pete e Ellie possivelmente se tornou a “mãe das comédias românticas”. Seja para um cinéfilo, jornalista ou leigo, é uma obra que merece ser valorizada e nunca esquecida. Independentemente do tempo e da idade, o filme é uma ótima opção para acompanhar uma tarde chuvosa e, com um balde de pipoca, descobrir e se divertir com tudo o que “aconteceu naquela noite”.


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