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“A Sangue Frio”: O jornalismo literário de Truman Capote como ferramenta de reflexão moral e ética

Bernardo Bruno


“HOLCOMB, Kansas, Nov. 15 –– Um fazendeiro rico, sua esposa e seus dois filhos foram achados mortos por tiros hoje em sua casa. Eles foram assassinados por tiros de espingarda à queima roupa depois de terem sido amordaçados e amarrados”.


Em 16 de Novembro de 1959, o New York Times publicava um artigo que mudaria para sempre a história do jornalismo literário. E não por causa do artigo em si e sim porque Truman Capote, depois de festejar e beber na noite anterior, estava lendo o artigo. O pequeno e estreito texto noticiava um brutal assassinato que havia ocorrido no interior do Kansas. As vítimas: uma tradicional família americana composta por um pai, uma mãe, uma filha e um filho mais novo. Era o sonho americano sendo despedaçado completamente da noite para o dia, finalmente a inocência e bons costumes dos anos 50 começavam a mostrar um lado muito mais sombrio do que o das propagandas da Coca-Cola e do Cadillac.


A partir do interesse por essa notícia, Capote, trabalhando para a revista New Yorker, convoca sua amiga de infância e também escritora, Harper Lee, autora de O Sol É Para Todos, para ir à cidadezinha de Holcomb investigar sobre os assassinatos e entrevistar os habitantes do local. O escritor na época já tinha um status de celebridade, devido à publicação do livro Bonequinha de Luxo, adaptado em 1961 no clássico filme estrelado por Audrey Hepburn, e pelo seu carisma e personalidade forte. Depois de seis anos trabalhando no livro sobre os assassinatos no Kansas a partir de mais de 8000 páginas de anotações, o carismático escritor norte-americano finalmente lançava A Sangue Frio. A obra que inicialmente foi publicada em quatro capítulos nas páginas da New Yorker em 1965, compilada em um livro um ano depois e é uma das mais profundas investigações acerca da psique humana, dos efeitos de um assassinato em uma comunidade e da natureza efêmera da vida.

(Capa da edição brasileira do livro / Fonte: Companhia das Letras)


A publicação é um sucesso absoluto de vendas e muda para sempre o jeito que se escreve um livro-reportagem, o autor (com seu ego e narcisismo usual) considerava sua obra como um romance não-ficcional e não um “simples” livro-reportagem: A Sangue Frio era literatura. Vemos a influência do livro no New Journalism, um estilo de jornalismo que ficou em destaque nos anos 60 e 70 e que usava de técnicas literárias não convencionais para a época, como a imersão do autor nos fenômenos descritos em detrimento de uma abordagem mais direta e noticiosa.


E, realmente, a escrita de Capote era genial, o livro tem uma forma bem mais parecida com a de um romance, tanto que o escritor nos prende aos personagens e à narrativa sendo quase impossível largar a leitura. A história não é narrada na ordem da investigação e sim na ordem linear dos acontecimentos, como um livro romanceado em que o narrador é onipotente e onipresente. Sabemos desde as primeiras páginas que Richard Hickock, ou simplesmente Dick, e Perry Smith são os assassinos por trás do crime brutal. E é justamente na introdução dos dois criminosos que temos o primeiro grande momento do clássico jornalístico.


Truman Capote inicia o livro com uma descrição geográfica da região de Holcomb nos introduzindo ao local com seu estilo descritivo e carismático. Logo depois começa a nos apresentar alguns cidadãos do interior do Kansas, com destaque à Herb Clutter, o chefe da família que no mesmo dia seria assassinada. E após isso tudo, acontece uma quebra, o escritor aposta na ironia ao comparar os hábitos de predador e presa, nos introduzindo a Hickock e Smith com a seguinte frase: “Assim como o sr. Clutter, o jovem que consumia seu desjejum num café chamado Little Jewel jamais tomava café.” O autor aposta na linguagem criativa, o que contribui na criação de um forte envolvimento e suspense em todo o primeiro capítulo, além de um senso de iminência devastador, como se a qualquer momento essa família que estamos criando relações pudesse morrer. E morre.


Mas um dos vários diferenciais da obra é a omissão das mortes em um primeiro momento pelo autor. O clímax e o ponto focal da investigação tanto psicológica quanto criminal só é revelado no final do terceiro e penúltimo capítulo por Perry Smith. Isso gera uma curiosidade instigante, um suspense pelo desconhecido mesmo. A cada página o leitor quer saber mais e mais a motivação real dos assassinos por trás de um crime sem explicação. Não que exista qualquer explicação para matar, mas Perry e Dick não tinham envolvimento emocional com a família Clutter e os dois criminosos só conseguiram roubar de 40 a 50 dólares na casa do fazendeiro. Então o que realmente aconteceu naquela temida noite?


Até Truman Capote responder essa complexa pergunta, passamos por diversos pontos de vista no decorrer do texto, seja o das equipes investigativas, dos moradores de Holcomb e principalmente, de Perry Smith e Dick Hickock. Os grandes protagonistas de In Cold Blood, título original da obra, são os “vilões”. E isso não é coincidência por parte de Truman, que quer a todo momento nos provocar com questões morais complexas, já que a presença dos dois assassinos é muito atraente. No entanto, desse ponto surge a maior polêmica do livro: o escritor apesar de esconder sua presença no texto através do que chamava de “retórica do silêncio”, teve muito envolvimento direto na história. O filme Capote de 2005 que rendeu um Oscar de melhor atuação para Philip Seymour Hoffman, retrata bem esse envolvimento do autor com as fontes durante a escrita de A Sangue Frio, principalmente Perry. O autor que era homossexual teria, segundo algumas fontes, se apaixonado por Smith e criado uma relação próxima com o assassino, o que pode ter afetado sua obra jornalística.


Então, até que ponto o trabalho de Truman foi ético e justo com os personagens reais da obra? É aí que entra a discussão do jornalismo imparcial e já começo afirmando que a imparcialidade é um conceito utópico e superficial que dificilmente é aplicado por jornalistas. Afinal, os repórteres (ainda) são humanos e humanos escolhem posicionamentos, mesmo que inconscientemente, então acho necessário já descartar esse ideal. Dito isso, o problema na obra de Capote é dar a entender que o escritor foi apenas um espectador perante toda aquela história, quando teve envolvimento direto nos acontecimentos e processos investigativos. Além disso, alguns personagens do livro também afirmaram terem sido enquadrados de maneira ligeiramente diferente da realidade, como se o escritor tivesse mudado fatos sob uma pretensa licença poética.


O autor Philip K. Tompkins inspirado nessas acusações decide escrever o artigo In Cold Fact para investigar as inconsistências factuais de In Cold Blood. No texto, ele afirma que Truman Capote escreve seus próprios pensamentos através das falas dos personagens e acaba montando uma representação romantizada de Perry. Não conseguimos distinguir o que é ficção de jornalismo e isso é muito perigoso. As próprias descrições de Capote são muito exatas e específicas, ele descreve as reações psicológicas de vários personagens, a sensação que fica é que o escritor estava como um ser onipresente e onipotente em todas as cenas narradas, o que é impossível. Capote era genial, mas não era Deus.


Entretanto, isso não apaga o mérito da obra que é incontestavelmente uma das maiores obras do jornalismo literário e que teve sim muita pesquisa intensa envolvida na escrita do livro. O autor tinha um método muito único na abordagem das fontes por se recusar a usar o gravador ou o bloco de notas, talvez as grandes ferramentas de um jornalista. Capote alegava ter uma capacidade de memorizar 94% de todas as conversas, logo não precisaria registrá-las na hora da entrevista, momento tão importante e vital para qualquer boa matéria. Segundo ele, esses instrumentos intimidam o entrevistado, logo as respostas não seriam tão honestas e o relato não seria tão fundamental. Além disso, o cargo, tão importante na atualidade, de fact checker foi criado pela revista New Yorker, justamente para checar a veracidade das entrevistas de Capote.


Mas voltando à Dick e Perry, a dupla de criminosos é o grande destaque do clássico e a partir dos dois renegados surgem as discussões mais complexas da obra. Justamente por passarmos tanto tempo junto dos dois enquanto viajam pelos Estados Unidos e fogem das investigações, acabamos dando um mergulho profundo na psicologia dos dois assassinos. Assim como um bom filme de terror, a repulsa que sentimos ao nos depararmos com o lado sombrio da humanidade é acompanhada imediatamente de uma intensa curiosidade e encantamento. Palavras do próprio Perry ao se referir aos psiquiatras: “Só queriam se distrair. Ficar sabendo dos detalhes sórdidos diretamente dos lábios terríveis do assassino. Ah, os olhos deles brilhavam”.


(Richard “Dick” Hickock à esquerda e Perry Smith à direita / Imagem: Reprodução)


E isso não é diferente de nós como leitores ao nos depararmos com essa história. Existe um certo afeiçoamento com os assassinos, principalmente Perry Smith, já que Dick é um ser humano odiável em quase todos os sentidos. Mas Perry é extremamente sensível, passou por uma infância infernal, viu dois de seus irmãos se suicidarem, tem um corpo meio deformado devido a um problema nas pernas. Perry é um ser humano único e interessantíssimo, o ponto alto de A Sangue Frio são as explorações psicológicas e morais do personagem. No seu depoimento sobre o assassinato de Herb Clutter, Perry afirma: “E eu não estava querendo enganá-lo. Eu não queria fazer mal àquele homem. Achei que era um senhor simpático. Que falava manso. E era assim que eu pensava até a hora em que cortei o pescoço dele”. Brutal.


Porém, já no final da narrativa, quando Perry Smith e Richard Hickock são julgados no tribunal, outra discussão complexa se instaura na obra, a da pena de morte. Smith e Hickock são rapidamente considerados culpados e ficam anos no corredor da morte até o inevitável enforcamento em 1965. Se o livro começa com uma execução a sangue frio ele termina com outra. Antes de ser executado Perry afirma: “Acho que é um absurdo tirar a vida de uma pessoa desta maneira. Não acredito na pena de morte, nem do ponto de vista moral nem legal. Talvez eu pudesse contribuir com alguma coisa, alguma coisa…”.


É mais nefasto ainda perceber que a realidade de 1960 ainda é muito parecida com a atual, principalmente nos Estados Unidos. Segundo o site da Anistia Internacional, a pena de morte ainda é praticada em mais de 50 países em todo o mundo e em 31 estados americanos. Um estudo da universidade de Northwestern analisou a opinião de mais de 60 pesquisadores americanos sobre o assunto e 88% afirmam que execuções de detentos não têm impacto nos níveis de criminalidade. Perry e Dick deveriam ter sido punidos à altura dos crimes que cometeram, mas o que ocorreu no final das contas foi só brutalidade e vingança, um ciclo de violência sem fim. A sangue frio.


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