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A cor invisível: a invisibilização do negro no jornalismo brasileiro e sua ligação contemporânea

Atualizado: 9 de out. de 2020

Anne Poly


(Publicação da jornalista e apresentadora Maju Coutinho/ Imagem: Instagram)


A constatação é alarmante: embora pessoas pretas sejam 55,8% da população, sua representatividade no âmbito da comunicação beira os 23% (sendo 5% negros e 18% pardos), conforme o Perfil do Jornalista Brasileiro (MICK; LIMA, 2012). Essa realidade é denunciada pela matéria escrita por Andressa Kikuti e Janara Nicoletti. Falta de diversidade nas redações esconde racismo estrutural do jornalismo e dificulta o debate sobre desigualdade entre negros e brancos é uma leitura obrigatória de reportagem para quem deseja desvendar o racismo escondido na invisibilização racial da maior parte dos brasileiros na imprensa nacional.


As jornalistas, doutorandas em Jornalismo no PPGJOR (Programa de Pós-Graduação em Jornalismo) e pesquisadoras do objETHOS (site do Departamento de Jornalismo e do Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina), publicaram a matéria originalmente no site objETHOS e posteriormente no Observatório da Imprensa - página que funciona como um fórum na qual os usuários podem publicar seus textos jornalísticos. A questão social é primordialmente discutida no texto das profissionais. A mídia, de certa forma, determina quais são os principais assuntos do momento: sem debates sobre racismo nos veículos de comunicação, as questões raciais são suprimidas. Assim, a redução do preconceito na profissão, ou até mesmo a extinção desse, é vista a partir de uma perspectiva cada vez mais pessimista. Quando uma pessoa racista não reconhece a si mesma como tal, a mudança de pensamento é dificultada.


O Dia da Consciência Negra (20 de novembro), de acordo com pesquisas de Andressa e Janara, teve repercussão quase nula nas plataformas midiáticas no ano de 2018. As raras reportagens sobre o assunto tiveram espaço em jornais como Folha de São Paulo e O Globo, contudo, as abordagens usadas não destacaram a questão da igualdade racial como algo urgente. Um exemplo disso é o uso do termo “elite”, ligado a carreiras com baixo índice de diversidade, para, de maneira implícita, explicar a ausência de negros em ambientes profissionais com predominância branca. Ainda que não fosse essa a intenção, há o aprofundamento da lacuna social causada pelo racismo através de atitudes aparentemente sutis como essa.


A questão principal, no entanto, é a escassa representatividade de profissionais negros e pardos. Em 2018, Maju Coutinho, apresentadora do Jornal Hoje, publicou no Instagram uma foto que evidenciou a dominância de brancos no ambiente de trabalho. A postagem teve o poder de exemplificar essa realidade tão recorrente no Brasil, enfatizada pelas pesquisadoras do site objETHOS. Ainda assim, esse cenário pode chocar muitas pessoas, que não percebem a gravidade do panorama amplamente desproporcional. A reportagem alerta que a representatividade negra dentro da redação pode estimular a análise crítica da população relativa às questões raciais, e por isso a denúncia acerca dessa ausência é tão importante.


Outro ponto abordado no texto que apresenta a dificuldade de jornalistas negros e periféricos na área, é o fato de muitos serem chamados para discutir e informar, na grande maioria das vezes, temáticas de cunho social e racial. Essa prática impede profissionais de abordarem outros temas, como jornalistas de pele branca fazem o tempo todo. O racismo também está presente na ideia de que essas pessoas não podem criar matérias diversas, no lugar de reportagens restritas somente à questão de desigualdade e preconceito. Uma perspectiva como essa é essencial para que o leitor compreenda que até atitudes aparentemente positivas - como falar sobre a discriminação - podem ser problemáticas quando não há o entendimento necessário acerca de todas as dificuldades enfrentadas por esses comunicadores.


Falta de diversidade nas redações esconde racismo estrutural do jornalismo e dificulta o debate sobre desigualdade entre negros e brancos é um ótimo texto para quem deseja ampliar seus conhecimentos acerca da falta de diversidade racial da imprensa no Brasil, repleto de pesquisas e informações que embasam de maneira equilibrada os argumentos propostos pelas jornalistas. Os dados estatísticos, assim como a postagem da Maju, estruturam posicionamentos críticos que são positivos na busca pela diversidade. A reportagem vai abrir sua mente quanto ao tema, e a partir da leitura, ao explorar os canais de comunicação, você procurará saber se há representatividade, tanto nas bancadas dos jornais quanto por trás das câmeras.

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